Pensou que podia a desgraça, que elle temia, recahir sobre sua pessoa, e quiz dispor a sua ultima vontade, assegurando o socego de sua familia.

Depois, o aviso de Pery lembrou-lhe de repente o que tinha visto; recordou-se das menores circumstancias, combinou-as com o que Isabel havia contado a sua tia, e conheceu o que se tinha passado como se o houvesse presenciado.

A ferida do indio que se abrira com as emoções por que passou durante o momento cruel em que sua senhora o mandava partir, tinha manchado o saio de algodão com um ponto quasi imperceptivel; este ponto foi um raio de luz para D. Antonio.

O escudeiro, o digno Ayres Gomes, que depois de esforços inauditos conseguira arrastar com o pé a sua espada, levanta-la e com ella cortar os laços que o prendião, tinha pois razão de ficar pasmado diante do que se passava.

Pery, beijando a mão de D. Lauriana, Cecilia contente e risonha, D. Antonio de Mariz e D. Diogo contemplando o indio com um olhar de gratidão; tudo isto ao mesmo tempo, era para fazer enlouquecer ao escudeiro.

Sobretudo para quem souber que apenas livre correra á casa unicamente com o fim de contar o occorrido e pedir a D. Antonio de Mariz licença para esquartejar o indio; resolvido se o fidalgo lh'a negasse despedir-se do seu serviço, no qual se conservava havia trinta annos; mas tinha uma injuria a vingar, e bem que lhe custasse deixar a casa, Ayres Gomes não hesitava.

D. Antonio vendo a figura espantada do escudeiro, rio-se; sabia que elle não gostava do indio, e quiz neste dia reconciliar todos com Pery.

—Vem cá, meu velho Ayres, meu companheiro de trinta annos. Estou certo que tu, a fidelidade em pessoa, estimarás apertar a mão de um amigo dedicado de toda a minha familia.

Ayres Gomes não ficou pasmado só; ficou uma estatua. Como desobedecer a D. Antonio que lhe fallava com tanta amizade? Mas como apertar a mão que o havia injuriado?

Se já se tivesse despedido do serviço, seria livre; mas a ordem o pilhára de sorpreza; não podia sophisma-la.