—Isto me bastava. Quando vos tinha olhado horas e horas, sem que o percebesseis, julgava-me feliz; recolhia-me com a minha doce imagem, e conversava com ella, ou adormecia, sonhando bem lindos sonhos.

O cavalheiro sentia-se perturbado; mas não ousava interromper a Isabel.

—Não sabeis que segredos tem esse amor que vive só de suas illusões, sem que um olhar, uma palavra o alimente. A mais pequenina cousa é um prazer, uma ventura suprema. Quantas vezes não acompanhava o raio de lua que entrava pela minha janella e que vinha a pouco e pouco se aproximando de mim; julgava vêr naquella doce claridade o vosso semblante, e esperava tremula de prazer como se vos esperasse. Quando o raio se chegava, quando a sua luz assetinada cahia sobre mim, sentia um gozo immenso; acreditava que me sorrieis, que vossas mãos aperta vão as minhas, que vosso rosto se reclinava para mim, e vossos labios me fallavão...

Isabel pendeu a cabeça languida sobre o hombro de Alvaro; o cavalheiro palpitando de emoção passou o braço pela cintura da moça e apertou-a ao coração; mas de repente afastou-se com um movimento brusco.

—Não vos arreceieis de mim, disse ella com melancolia, sei que não me deveis amar. Sois nobre e generoso; o vosso primeiro amor serão ultimo. Podeis-me ouvir sem temor.

—Que vos resta a dizer-me ainda? perguntou Alvaro.

—Resta a explicação que ha pouco me pedieis.

—Ah! emfim!

Isabel contou então como apezar de toda a força de vontade com que guardava o seu segredo se havia trahido; contou a conversa de Cecilia, e o modo por que a menina lhe fizera aceitar o bracelete.

—Agora sabeis tudo; o meu affecto vai de novo entrar no meu coração, donde nunca sahiria se não fosse a fatalidade que fez com que vos aproximasseis de mim, e me dirigisseis algumas palavras doces. A esperança para as almas que não a conhecêrão ainda, illude tanto e fascina, que devo merecer-vos desculpa. Esquecei-me, meu irmão, antes que lembrar-vos de mim para odiar-me!