—Fazeis-me uma injustiça, Isabel; não posso é verdade ser para vós senão um irmão, mas esse titulo sinto que o mereço pela estima e pela affeição que me inspirais. Adeus, minha boa irmã.
O moço pronunciou estas ultimas palavras com uma terna effusão, e, apertando a mão de Isabel, desappareceu: precisava estar só para reflectir sobre o que lhe acontecia.
Estava agora convencido que Cecilia não o amava, e nunca o havia amado; e esta descoberta tinha lugar no mesmo dia em que D. Antonio de Mariz lhe dava a mão de sua filha!
Sob o peso da magoa dolorosa, como é sempre a primeira magoa do coração, o cavalheiro afastou-se distrahido, com a cabeça baixa; caminhou sem direcção, seguindo a linha que traçavão os grupos de arvores, destacados aqui e alli sobre a campina.
Estava quasi a anoitecer: a sombra pallida e descorada do crepusculo estendia-se como um manto de gaze sobre a natureza; os objectos ião perdendo a forma, a cor, e ondulavão no espaço vagos e indecisos.
A primeira estrella engolfada no azul do céo luzia a furto como os olhos de uma menina que se abrem ao acordar, e cerrão-se outra-vez temendo a claridade do dia: um grillo escondido no toco de uma arvore começava a sua canção; era o trovador insecto saudando a aproximação da noite.
Alvaro continuava o seu passeio, sempre pensativo, quando de repente sentio um sopro vivo bafejar-lhe o rosto; erguendo os olhos viu diante de si uma longa flexa fincada no chão, e que ainda oscillava com o movimento que lhe tinha imprimido o arco.
O moço recuou um passo e levou a mão á cinta; logo reflectindo aproximou-se da seta e examinou a plumagem de que estava ornada; erão de um lado pennas de azulão e do outro pennas de garça.
Azul e branco erão as côres de Pery; erão as cores dos olhos e do rosto de Cecilia.
Um dia a menina, semelhante a uma gentil castellã da media idade, tinha-se divertido em explicar ao indio, como os guerreiros que servião uma dama, costumavão usar nas armas de suas côres.