—Sobre...

—Sobre minha salvação.

O italiano soltou o braço do miseravel, que cahio de joelhos pedindo ao Deus que offendia perdão para o perjurio que acabava de commetter.

Ruy Soeiro voltou: os tres seguirão calados o caminho que tinhão feito; Loredano pensativo, seus companheiros cabisbaixos.

Sentárão-se á sombra de uma arvore; ahi permanecêrão quasi uma hora, sem saber o que devião fazer, nem o que podião esperar. A posição era critica; reconhecião que se achavão n'um desses lances da vida, em que um passo, um movimento, precipita o homem no fundo do abysmo, ou o salva da morte que vai cahir sobre elle.

Loredano media a situação com a audacia e energia que nunca o abandonava nas occasiões extremas; uma luta violenta se travára neste homem, só tinha agora um sentimento, uma fibra; era a sêde ardente do gozo, sensualidade exacerbada pelo ascetismo do claustro e o isolamento do deserto. Comprimida desde a infancia, a sua organisação se expandira com vehemencia no meio desse paiz vigoroso, aos raios do sol ardente que fazia borbulhar o sangue.

Então, no delirio dos instinctos materiaes, surgirão duas paixões violentas.

Uma era a paixão do ouro; a esperança de poder um dia deleitar-se na contemplação do thesouro fabuloso que como Tantalo elle ia tocar e fugia-lhe.

A outra era a paixão do amor; a febre que lhe requeimava o sangue quando via aquella menina innocente e candida, que parecia não dever inspirar senão affeições castas.

A luta que naquelle momento o agitava dava-se entre essas duas paixões. Devia fugir e salvar o seu thesouro, perdendo Cecilia? Devia ficar e arriscar a vida para saciar o seu desejo infrene?