Durante a collação, Alvaro esteve descontente pela recusa que a moça fizera do modesto presente que elle havia acariciado com tanto amor e tanta esperança.
Logo que seu pai ergueu-se, Cecilia recolheu ao seu quarto, e ajoelhando diante do crucifixo, fez a sua oração. Depois, erguendo-se, foi levantar um canto da cortina da janella e olhar a cabana que se erguia na ponta do rochedo, e meu estava deserta e solitaria.
Sentia apertar-se o coração com a idéa de que, por um gracejo, tivesse sido a causa da morte desse amigo dedicado que lhe salvára a vida, e arriscava todos os dias a sua sómente para faze-la sorrir.
Tudo nesta recamara lhe fallava delle: suas aves, seus dous amiguinhos que dormião, um no seu ninho e outro sobre o tapete, as pennas que servião de ornato ao aposento, as pelles dos animaes que seus pés roçavão, o perfume suave de beijoim que ella respirava; tudo tinha vindo do indio que, como um poeta ou um artista, parecia crear em torno della um pequeno templo dos primores da natureza brasileira.
Ficou assim a olhar pela janella muito tempo; nessa occasião nem se lembrava de Alvaro, o joven cavalheiro elegante, tão delicado, tão timido, que córava diante della, como ella diante delle.
De repente a moça estremeceo.
Tinha visto á luz das estrellas passar um vulto que ella reconheceu pela alvura de sua tunica de algodão, e pelas formas esbeltas e flexiveis; quando o vulto entrou na cabana, não lhe restou a menor duvida.
Era Pery.
Sentio-se alliviada de um grande peso: e pode então entregar-se ao prazer de examinar um por um, com toda a attenção, os lindos objectos que recebera, e que lhe causavão um vivo prazer.
Nisto gastou seguramente meia hora; depois deitou-se, e como já não tinha inquietação nem tristeza, adormeceu sorrindo á imagem de Alvaro, e pensando na magoa que lhe fizera, recusando o seu mimo.