VIII
TRES LINHAS

Tudo estava em socego: apenas quando o vento escasseava, ouvia-se do lado do edificio habitado pelos aventureiros um rumor de vozes abafadas.

Á esta hora, havia naquelle lugar tres homens bem differentes pelo seu caracter, pela sua posição e pela sua origem, que entretanto tinhão uma mesma idéa.

Separados pelos costumes e pela distancia, os seus espiritos quebravão essa barreira moral e physica, e se reunião n'um só pensamento, convergindo para um mesmo ponto como os raios de um circulo.

Sigamos pois cada uma das linhas traçadas por essas existencias, que mais cedo ou mais tarde hão de cruzar-se no seu vertice.

N'uma das alpendradas que corrião no fundo da casa, trinta e seis aventureiros cercavão uma longa mesa, no meio da qual trascalavão em escudellas de páo algumas peças de caça, já estreadas de uma maneira que fazia honra ao appetite dos convivas.

O catalão não corria nos cangirões de louça e de metal com tanta fartura quanta era de desejar; mas em compensação, vião-se aos cantos do alpendre grossas talhas cheias de vinho de cajú e ananaz, onde os aventureiros podião beber á larga.

O vicio tinha supprido os licores europeos pelas bebidas selvagens; afóra uma pequena differença de sabor, havia no fundo de todas ellas o alcool que excita o espirito, e produz a embriaguez.

A collação começara á meia hora; nos primeiros momentos não se ouvio senão o mastigar dos dentes, os beijos dados aos cangirões, e o ranger da faca na escudella.

Depois, um dos aventureiros proferio uma palavra, cuja replica correu immediatamente á roda da mesa; a conversa tornou-se uma especie de choro confuso e discordante.