Em Alvaro, cavalheiro delicado e cortez, o sentimento era uma affeição nobre e pura, cheia da graciosa timidez que perfuma as primeiras flores do coração, e do enthusiasmo cavalheiresco que tanta poesia dava aos amores daquelle tempo de crença e lealdade.
Sentir-se perto de Cecilia, vê-la e trocar alguma palavra á custo balbuciada; corarem ambos sem saberem porque, e fugirem desejando encontrar-se; era toda a historia desse affecto innocente, que se entregava descuidosamente ao futuro, librando-se nas azas da esperança.
Nesta noite Alvaro ia dar um passo que na sua habitual timidez, elle comparava quasi com um pedido formal de casamento; tinha resolvido fazer a moça aceitar máo grado seu o mimo que recusara, deitando-o na sua janella; esperava que encontrando-o no dia seguinte, Cecilia lhe perdoaria o seu ardimento, e conservaria a sua prenda.
Em Pery o sentimento era um culto, especie de idolatria fanatica, na qual não entrava um só pensamento de egoismo; amava Cecilia não para sentir um prazer ou ter uma satisfação, mas para dedicar-se inteiramente a ella, para cumprir o menor dos seus desejos, para evitar que a moça tivesse um pensamento que não fosse immediatamente uma realidade.
Ao contrario dos outros elle não estava alli, nem por um ciume inquieto, nem por uma esperança risonha; arrostava a morte unicamente para ver se Cecilia estava contente, feliz e alegre: se não desejava alguma cousa que elle adevinharia no seu rosto, e iria buscar nessa mesma noite, nesse mesmo instante.
Assim o amor se transformava tão completamente nessas organisações, que apresentava tres sentimentos bem distinctos; um era uma loucura, o outro uma paixão, o ultimo uma religião.
Loredano desejava; Alvaro amava: Pery adorava. O aventureiro daria a vida para gozar: o cavalheiro arrostaria a morte para merecer um olhar: o selvagem se mataria, se preciso fosse, só para fazer Cecilia sorrir.
Entretanto nenhum desses tres homens podia tocar a janella da moça, sem correr um risco eminente; e isto pela posição em que se achava o quarto de Cecilia.
Embora o alicerce e a parede corressem a uma braça de distancia da ribanceira, D. Antonio de Mariz para defender esta parte do edificio tinha feito construir um respaldo que se abaixava da presinta das janellas até á beira da esplanada: era impossivel pois caminhar sobre esse plano inclinado, cuja face lisa e polida não offerecia nenhuma adhesão ao pé mais firme e mais seguro.
Abaixo da janella abria-se a rocha cortada a pique e formava um vallado profundo, coberto por um docel verde de trepadeiras e cipós que servia de habitação a todos esses reptis de mil fórmas que pullulão na sombra e na humidade.