Assim o homem que se precipitasse do alto da esplanada nessa fenda larga e funda, se por um milagre não se espedaçasse nas pontas da rocha, seria devorado em um momento pelas cobras e insectos venenosos que enchião essas grotas e alcantis.

Havia alguns instantes que a cortina da janella se tinha cerrado; apenas uma luz vaga e mortiça desenhava na folhagem verde-negra do oleo o quadro da janella.

O italiano que tinha os olhos fitos nesse reflexo como em um espelho, onde revia todas as imagens de sua louca paixão, estremeceu de repente. Na claridade debuxava-se uma sombra mobil; um homem se aproximava da janella.

Pallido, com os olhos ardentes e os dentes cerrados, pendido sobre o precipicio seguia as menores evoluções da sombra.

Vio um braço que se estendia para a janella, e a mão que deixava no parapeito um objecto qualquer, mas tão pequeno que não se percebia a forma. Pela manga larga do gibão, ou antes pelo instincto, o italiano adevinhou que este braço pertencia a Alvaro; e comprehendeu o que esta mão havia deitado na janella.

E não se enganava.

Alvaro, segurando-se a uma estaca do jardim e pondo um pé sobre o respaldo, coseu o corpo á parede; inclinando conseguio realisar o seu intento.

Depois voltou partilhado entre o tempo da acção que praticára, e a esperança de que Cecilia lhe perdoaria.

Loredano apenas viu desapparecer a sombra, e ouvio os echos dos passos do moço, que se repercutião surdamente no fundo do precipicio, sorrio. Sua pupilla fulva brilhou na treva, como os olhos da hirára.

Tirou a sua adaga e cravou-a na parede tão longe quanto lhe permittio a curva que o braço era obrigado a fazer para abarcar o angulo.