Cecilia tinha chegado a uma latada de jasmineiros que havia á borda d'agua, e que lhe servia de casa de banho; era um dos trabalhos do indio, que o havia arranjado com aquelle cuidado e esmero que punha em satisfazer as vontades da menina.
Pery já tinha ganho a margem do rio, e estava longe; Isabel sentou-se na relva.
Então afastando as ramas dos jasmineiros que occultavão inteiramente a entrada, Cecilia penetrou naquelle pequeno pavilhão de verdura, e examinou se as folhas estavão bem embastidas, se não havia alguma fresta por onde o olhar do dia penetrasse.
A innocente menina tinha vergonha até do raio de luz que podia vir espiar os thesouros de belleza que occultava a cambraia de suas roupagens.
Assim, foi depois desse exame escrupuloso, e ainda córando de si mesma, que começou o seu vestuario de banho. Mas quando o corpinho da anagoa cahindo descobrio suas alvas espaduas e seu collo puro e suave, a menina quasi morreu de pejo e de susto. Um passarinho escondido entre as folhas, um garrulo travesso e malicioso, gritára distinctamente:—Bem te vi!
Cecilia rio-se do susto que tivera, e acabou o seu vestuario de banho que a cobria toda, deixando apenas nús os braços e o pézinho de menina.
Atirou-se á agua como um passarinho: Isabel que a acompanhara por com prazer ficou sentada á beira do rio.
Como Cecilia estava bella nadando sobre as aguas limpidas da corrente, com seus cabellos louros soltos, e os braços alvos que se curvavão graciosamente para imprimir ao corpo um doce movimento! Parecia uma dessas garças brancas, ou colhereiras de rosea côr que deslisão mansamente á flôr do lago, nas tardes serenas, espelhando-se no crystal das aguas.
Ás vezes a linda menina se deitava de bruços e sorrindo ao céo azul ia levada pela corrente; ou perseguia os jassanans e marrecas que fugião diante della. Outras vezes Pery que estava distante do lado superior do rio, colhia alguma flôr parasita que deitava sobre um barquinho feito de uma casca de páo e que vinha trazido pela correnteza.
A menina perseguia o barquinho á nado, apanhava a flôr, e ia offerece-la na pontinha dos dedos á Isabel, que desfolhando-a tristemente murmurava as palavras cabalisticas com que o coração procura illudir-se.