—Fazei o que vos aprouver! Sois homem, e não tendes medo de nada! Mas eu, continuou arrepiando-se, não poderei mais dormir, só com a idéa de que uma jararaca sobe-me á cama; de dia a todo o momento julgarei que algum gato montez vai saltar-me pela janella; que a minha roupa está cheia de lagartas de fogo! Não ha forças que resistão a semelhante martyrio!
D. Antonio começou a reflectir seriamente sobre o que dizia sua mulher, e a pensar no sem numero de faniquitos, desmaios e arrufos que ia produzir o terror panico justificado pelo facto do indio; comtudo conservava ainda a esperança de conseguir acalma-la e dissuadi-la.
D. Lauriana espiava o effeito do seu ultimo ataque. Contava vencer.
XIII
REVELAÇÃO
Isabel e Cecilia que voltavão do banho conversando, aproximárão-se da porta, não sem algum susto do animal; susto que se desfez com o sorriso do velho fidalgo, revendo-se na belleza de sua filha.
Com effeito, Cecilia estava nesse momento de uma formosura que fascinava.
Tinha os cabellos ainda humidos, dos quaes se escapava de vez em quando um aljôfar que ia perder-se na covinha dos seios cobertos pelo linho do roupão; a pelle fresca como se ondas de leite corressem pelos seus hombros; as faces brilhantes como dous cardos rosas que se abrem ao pôr do sol.
As duas meninas fallavão com alguma vivacidade; mas ao aproximarem-se da porta, Cecilia que ia um pouco adiante voltou-se para sua prima na pontinha dos pés, e comum arzinho petulante levou o dedo aos labios recommendando silencio.
—Sabes, Celilia, que tua mãi está muito zangada com Pery! disse D. Antonio tomando o rostinho mimoso de sua filha e beijando-a na fronte.
—Porque, meu pai? Fez elle alguma cousa?