—Eu te reconheço; tu és meu filho; é o meu sangue juvenil que gyra em tuas veias, e o meu coração de moço que falla pelos teus labios. Deixa porém que os cincoenta annos de experiencia que desde então passárão sobre minha cabeça encanecida te ensinem o que vai da mocidade á velhice, o que vai do ardente cavalheiro ao pai de uma familia.

—Eu vos escuto, senhor; mas pelo amor que vos consagro poupai-me a dôr e a vergonha de deixar-vos no momento em que mais precisais de um servidor fiel e dedicado.

O fidalgo proseguio já calmo:

—Não é uma espada, D. Diogo, que nos dará a victoria, fosse ella valente e forte como a vossa: entre quarenta combatentes que vão se medir talvez contra centenas e centenas de inimigos, um de mais ou de menos não importa ao resultado.

—Que assim seja, respondeu o cavalheiro com energia; reclamo o meu posto de honra, e a minha parte do perigo; não vos ajudarei a vencer, porém morrerei junto dos meus.

—E é por esse nobre mas esteril orgulho que quereis sacrificar o unico meio de salvação que talvez nos reste, se, como temo, as minhas previsões se realisarem?

—Que dizeis, senhor?

—Qualquer que seja a força e o numero de inimigos, conto que o valor portuguez e a posição desta casa me ajudarão a resistir-lhes por algum tempo, por vinte dias, mesmo por um mez; mas por fim teremos de succumbir.

—Então?... exclamou D. Diogo pallido.

—Então, se meu filho D. Diogo, em vez de ficar nesta casa por uma obstinação imprudente, tiver ido ao Rio de Janeiro, e pedido o auxilio que fidalgos portuguezes não lhe recusarão de certo, poderá voar em socorro de seu pai, e chegar com tempo para defender sua familia. Então verá que esta gloria de ser o salvador de sua casa vale bem a honra de um perigo inutil.