Pery entrou na sala onde se achava reunida a familia.

Todos dormião; só D. Antonio de Mariz velava sempre, apezar da velhice; sua vontade poderosa cobrava novas forças, e reanimava o corpo gasto pelos annos. Não lhe restava senão uma esperança; a de morrer rodeado dos entes que amava, cercado de sua familia, como um fidalgo portuguez devia morrer; com honra e coragem.

O indio atravessou a sala, e collocando-se junto do sofa em que Cecilia adormecida repousava, contemplou-a um instante com um sentimento de profunda melancolia.

Dir-se-hia que nesse olhar ardente fazia uma ultima e solemne despedida; que partindo-se, o escravo fiel e dedicado queria deixar a sua alma enleiada naquella imagem, que representava a sua divindade na terra.

Que sublime linguagem não fallavão aquelles olhos intelligentes, animados por um brilhante reflexo de amor e de fidelidade? Que epopéa de sentimento e de abnegação não havia naquella muda e respeitosa contemplação?

Por fim Pery fez um esforço supremo, e a custo conseguio quebrar o encanto que o prendia, e o conservava immovel, como uma estatua, diante da linda menina adormecida. Reclinou sobre o sofá, e beijou respeitosamente a fimbria do vestido de Cecilia; quando ergueu-se, uma lagrima triste e silenciosa que deslisava pela sua face cahio sobre a mão da menina.

Cecilia, sentindo aquella gota ardente, entreabrio os olhos; mas Pery não viu este movimento, porque já se tinha voltado e aproximava-se de D. Antonio de Mariz.

O fidalgo, sentado na sua poltrona, recebeu-o com um sorriso pungente:

—Tu soffres? perguntou o indio.

—Por elles, por ella especialmente, por minha Cecilia.