Era a eterna questão, mas esperavam resolvel-a empregando apparelhos de grandes dimensões.

Ora acontecia que, n’esta lucta de inventores á busca de um motor poderoso e leve, os americanos se tinham approximado cada vez mais do desideratum. Um apparelho dynamo-electrico, baseado no emprego de uma pilha nova, cuja composição era ainda um mysterio, tinha sido comprado ao seu inventor, um chimico de Boston até então desconhecido. Calculos feitos com o maior cuidado, diagrammas levantados com a maior exactidão, demonstravam que com aquelle apparelho, actuando n’um helice de dimensão conveniente, se poderia obter deslocamentos de dezoito a vinte metros por segundo.

Na realidade, sería magnifico!

—E não é caro! tinha accrescentado Uncle Prudent, entregando ao inventor, em troca do seu recibo em forma, o ultimo maço dos cem mil dollars em papel, com que lhe pagavam o seu invento.

Immediatamente, o Weldon-Institute puzera mãos á obra. Quando se trata de uma experiencia que pode ter alguma utilidade prática, o dinheiro sae de boa vontade das algibeiras americanas. Os fundos affluem sem que mesmo seja necessario constituir uma sociedade por acções. Tresentos mil dollars,—o que faz a somma de quinhentos mil francos,—vieram ao primeiro appello amontoar-se nos cofres do club. Os trabalhos começaram sob a direcção do mais celebre aeronauta dos Estados Unidos, Harry W. Tinder, immortalisado pelas suas tres ascensões, entre mil: uma durante a qual subira a doze mil metros, mais alto que Guy-Lussac, Coxwell, Sivel, Crocé-Spinelli, Tissandier, Glaisher; a outra, durante a qual atravessára toda a America, de Nova York a S. Francisco, indo muitas centenas de leguas além dos itinerarios de Nodar, dos Godard, e de tantos outros, não falando n’esse John Wise que tinha feito mil cento e cincoenta milhas de S. Luiz ao condado de Jefferson; a terceira, finalmente, que terminára por uma quéda horrorosa de mil e quinhentos pés, á custa de uma simples escoriação no pulso direito, emquanto que Pilatre de Rozier, menos feliz, por ter cahido apenas de setecentos pés, ficára morto de um só golpe.

No momento em que esta historia começa, podia-se dizer que o Weldon-Institute entrava abertamente no assumpto. Nos estaleiros de Turner, na Philadelphia, extendia-se um enorme aerostato, cuja solidez ia ser experimentada, comprimido o ar sob uma forte pressão. Este era o que, entre todos, merecia o nome de balão monstro.

Com effeito, quanto media o Gigante de Nadar? Seis metros cubicos. Quanto o balão Giffard, da Exposição de 1878? Vinte e cinco mil metros cubicos, com dezoito metros de raio. Comparem estes tres aerostatos com a machina aerea do Weldon-Institute, cujo volume era de quarenta mil metros cubicos, e comprehenderão que Uncle Prudent e seus collegas tinham algum direito para se encherem de orgulho.

Não sendo esse balão destinado a explorar as altas camadas da atmosphera, não se chamava Excelsior, qualificativo muito querido dos americanos. Não! chamava-se simplesmente o Go a head,—o que quer dizer:—“Ávante„—e não lhe restava mais do que justificar o seu nome, obedecendo a todas as manobras do seu capitão.

N’aquella épocha, a machina dynamo-electrica estava quasi completamente concluida, segundo o systema cujo privilegio fôra adquirido pelo Weldon-Institute. Podia-se contar que antes das seis semanas, o Go a head largaria vôo através do espaço.

Como vimos, todas as difficuldades da machina não estavam ainda removidas. Muitas sessões tinham sido consagradas a discutir, não a forma do helice, nem as suas dimensões, mas a questão de saber se seria collocado atraz do apparelho, como haviam feito os Irmãos Tissandier, ou adeante, como haviam feito os capitães Krebs e Renard. Inutil é accrescentar que, n’aquella discussão, os partidarios dos dois systemas tinham chegado a vias de facto. O grupo dos “adeantistas„ egualava em numero o grupo dos “atrazistas„. Uncle Prudent, cujo voto teria de preponderar no caso do empate, Uncle Prudent, educado na eschola do professor Buridan, não tinha chegado ainda a pronunciar-se.