De repente poz-se, por assim dizer, de pé, e atirou-se á agua com uma tal velocidade, que Tom Turner mal teve tempo de lhe alar a corda.

N’um puxão, a aeronave foi arrastada á superficie das aguas. Um turbilhão se formara no sitio onde o animal desapparecêra. Uma vaga entrou para dentro da aeronave, como acontece com um navio que caminha contra o vento e contra a onda.

Felizmente, com um golpe de machado, Tom Turner cortou a corda, e o Albatrós, livre do reboque, subiu duzentos metros, com o poder dos seus helices ascensionaes.

Quanto a Robur, manobrára o apparelho sem que o seu sangue frio o houvesse abandonado um momento.

Alguns minutos depois a baleia voltava á tona da agua,—porém morta d’esta vez. Por todos os lados as aves do mar accorriam, soltando gritos capazes de ensurdecer todo um Congresso.

O Albatrós, não sabendo o que fazer áquelle cadaver, retomou para léste o seu andamento.

No dia seguinte, 17 de junho, ás seis horas da manhã, uma terra se avistou no horisonte. Era a peninsula de Alaska, e a longa sementeira de rochedos das Aleutes.

O Albatrós saltou por cima d’essa barreira onde pullulam as focas, para pelles, que os habitantes d’aquelle paiz pescam por conta da Companhia Russo-Americana. Excellente cousa, a captura d’esses amphibios, do comprimento de seis a sete pés, côr de ferrugem, e que pesam trezentos e quinhentos arrateis. Eram filas interminaveis d’elles, em formatura de batalha, e contavam-se aos milhares.

Se não se mexeram á passagem do Albatrós, não aconteceu o mesmo com os mergulhões, e outros animaes, cujos gritos roucos encheram o espaço, e que desappareceram nas aguas como se fôssem ameaçados por algum grande animal aereo.

Os dois mil kilometros do mar de Behring, desde as primeiras Aleutes até a ponta extrema do Kamtchalka, foram transpostos durante as vinte e quatro horas d’esse dia e da noite immediata. Para pôr em execução o seu plano de fuga, Uncle Prudent e Phil Evans não se encontravam em condições favoraveis. Não era nem sobre as margens desertas da extrema Asia, nem nas paragens do mar de Okhotsk que se podia realisar essa fuga, com alguma probabilidade de exito. Visivelmente o Albatrós dirigia-se para as terras do Japão e da China. Alli, apesar de não ser talvez prudente pôrem-se á discreção dos Chinezes e Japonezes, os dois collegas estavam resolvidos a fugir, se a aeronave fizesse alto em qualquer ponto d’aquelles territorios.