—Não. Titia póde alugar outra criada... papae fallará com ella...

A tia Joanna acabara de partir o pão e chamava á sobrinha para o café da vespera, requentado.

Quando sahiram era já dia, mas as nevoas da manhã poisavam ainda nos telhados, e nada se via da cidade, em baixo.

Pelo caminho do convento cabras saltavam, seguidas dos cabritos de pello espesso e novo, e na grama molhada faziam correrias uns cachorros vadios. Tocou a matinas e a tia Joanna benzeu-se. Ruth, pouco afeita a madrugadas, achava um prazer divino em ir assim rompendo as nevoas com a pelle refrescada pela humidade da atmosphera e os olhos cheios d'aquella luz branca, suave, que subia e se ia extendendo pelo céo todo.

Na egreja, a tia fez reverencia a todos os altares, com uma oraçãozinha na ponta da lingua para cada um; Ruth seguiu até o altar-mór e ao ajoelhar-se sentiu como nunca que havia na sua alma uma supplica, um appello para a misericordia de Deus. Entre o altar, onde um ramo de flores esquecidas se ia desfolhando, e os seus olhos sonhadores, foi-se esboçando pouco a pouco a figura angulosa e tosca da Sancha. De mãos postas, Ruth pediu á Virgem uma bençam para a negra, um pouco de piedade, um refugio, uma consolação. Até alli que sabia das miserias do mundo? nada. Aquella noite do Castello, tão simples, tão monotona, fora uma revelação! Era bem certo que a lagrima existia, que irrompiam soluços de peitos opprimidos, que para alguem os dias não tinham côr nem a noite tinha estrellas! Ella, criada entre beijos, no aroma dos seus jardins, com as vontades satisfeitas, o leito fofo, a mesa delicada, sentira sempre no coração um desejo sem nome, um desejo ou uma saudade absurda, a saudade do céo, como dizia o Dr. Gervasio, e que não era mais que a doida aspiração da artista incipiente, que germinava no seu peito fraco.

E aquella mesma magua parecia-lhe agora doce e embaladora, comparando-se á outra, a Sancha, da sua edade, negra, feia, suja, levada a ponta-pés, dormindo sem lençóes em uma esteira, comendo em pé, apressada, os restos parcos e frios de duas velhas, vestida de algodões rotos, curvada para um trabalho sem descanço nem paga!

Porque? Que direito teriam uns a todas as primicias e regalos da vida, se havia outros que nem por uma nesga viam a felicidade?

Sabia a historia da Sancha: uma negrinha vinda aos sete annos da roça para a casa das tias, com sentido no pão e no ensino. Era dos ultimos rebentões d'essa raça que vae desapparecendo, como um bando de animaes perseguidos.

E tudo d'ella repugnava a Ruth: a estupidez, a humildade, a côr, a fórma, o cheiro; mas percebera que tambem alli havia uma alma e soffrimento, e então, com lagrimas nos olhos, perguntava a Deus, ao grande Pae misericordioso, porque a criara, a ella, tão branca e tão bonita, e fizera com o mesmo sopro aquella carne de trevas, aquelle corpo feio da Sancha immunda? Que reparasse aquella injustiça tremenda e alegrasse em felicidade perfeita o coração da negra.

—Sim, o coração d'ella deve ser da mesma côr que o meu, scismava Ruth, confusa, com os olhos no altar.