—Eu? murmurou a moça espantada: Eu? repetia ella, com assombro, eu não sei nada!

—Tens razão ... cala-te e espera. Expliquem a minha mulher o significado da morte do cacatuá. Não faz mal. Adeus, tenho pressa...

Nina ficou pensando:

—Tio Francisco estará doido?

Um lindo dia, quente e luminoso. Nas copas floridas dos flamboyants, as cigarras cantavam estridulamente. Os bonds vinham cheios, e bandos de creanças passavam nas calçadas a caminho do collegio.

Francisco Theodoro é que não caminhava bem: tinha um grande peso derrubando-lhe os hombros, e sentia as pernas amollecidas. Tomou o bond já na praia. Adeante d'elle, no banco da frente, ia um portuguezinho recem-chegado, de jaqueta, chapéo de feltro de abas encebadas e grossos sapatos enlameados. O pequeno volvia para tudo um olhar pasmado, entreabrindo os labios seccos e gretados numa expressão admirativa. Francisco Theodoro não podia desprender a vista d'aquella creança rustica. Veio-lhe á memoria o seu desembarque, a sua pobreza, a crosta da terra patria que trazia presa ás solas brutas dos seus sapatos, e o espanto com que elle, tambem, nos seus primeiros dias, olhava para este céo, e estas arvores, e estas montanhas, em uma interrogação de esperança e de medo; e da saudade que tivera da brôa, da aldeia, das aguas claras d'aquelle rio em que se banhava nas tardes de verão, d'aquellas charnecas onde ia á caça dos grilos, d'aquelles campos de trigos doirados: ao sol, das cerejeiras onde trepava, dos ralhos da mãe, das caminhadas pelas brancas estradas atráz dos burricos do moleiro...

E, em um assomo, teve vontade de dizer ao ouvido do rapazinho: «Volta para a tua aldeia, contenta-te com o pão duro, com a sardinha assada, e a agua do bom Deus!

«Onde ha uma arvore ha sombra onde um homem se deite. Não queiras a riqueza, que ella engana e mente. Mais vale ser pobre toda a vida! Volve; acostuma tua mulher ao trabalho e os teus filhos a rolarem nús pela terra que um dia os ha de comer... Se bem os vestires a todos ... verás: pesarão ouro e valerão pó...»

Eram dez horas quando o negociante entrou no armazem. Seu Joaquim andava azedo e mal humorado, e até mesmo para o patrão tinha um modo rebarbativo e secco. Depois, o trabalho estacionara; não havia nenhum caminhão á porta e os caixeiros pasmavam-se para as rumas de saccos é para as aranhas do tecto.

Francisco Theodoro chegou-se á mesa que estava á esquerda da porta de entrada, apanhou ahi a sua correspondencia e girando sobre os calcanhares entrou no corredor ao lado e subiu ao escriptorio.