—Mande as cartas. E entrou para o seu gabinete.
O empregado releu os sobrescriptos e chegando-se á janella do fundo, que deitava para o interior do armazem, gritou para baixo:
—Seu Augusto!
Ninguem lhe respondeu, e como elle repetisse o chamado com mais força, o gerente voltou-se para cima com ar ameaçador e um outro caixeiro gritou:
—Seu Augusto ainda não voltou da rua!
Fechado o gabinete, Francisco Theodoro escreveu longamente ao Meirelles e ao Mario, relatando-lhes o desastre, sem lamentações.
Fechada a carta, lembrou-se que poderia talvez ter recorrido á Lage, mas levantou logo os hombros; era uma mulher, que podia entender de negocios? De mais, as coisas iriam em declive rapido, e um novo emprestimo seria um compromisso irremissivel ... melhor fôra não se ter lembrado d'ella. E as tias do Castello? a essas pediria apoio para a familia; elle já nada queria para si; poucos dias teria de vida: o golpe era muito forte para deixal-o de pé. Mas a mulher?... e as filhas? E, afinal, acreditava elle na fortuna das velhas? onde a escondiam ellas que ninguem a via? Riquezas, riquezas, vá a gente desencantal-as em cofres avaros!
As cartas expedidas tinham marcado para o dia seguinte ao meio-dia a reunião dos credores no armazem, para verificação do estado da casa. Francisco Theodoro tinha algumas horas deante de si para avisar a familia, mas faltava-lhe a coragem.
Sahiu do escriptorio mais tarde, fugindo do encontro habitual de um ou outro amigo. Logo no primeiro quarteirão teve um sobresalto; á porta da casa Torres estava um dos seus credores, o Serra; mal lhe adivinhou o corpanzil mettido em alvejantes brins, com um frak preto fugindo para trás e grossa corrente de ouro do Porto arqueando-se-lhe sobre o abdomen arredondado. Francisco Theodoro corou, teve desejos de ser engulido pela terra; e tocando com os dedos tremulos na aba do chapéo, esboçou um sorriso e foi andando.
Já mal podia caminhar: um peso horrivel nas pernas fazia-o retardar os passos, exactamente quando os queria accelerar; arrimava-se com força ao seu chapéo de chuva e remexia os beiços como se fosse a fallar sózinho; era a seccura, tinha um aperto na garganta, parecia-lhe ter engolido todo o pó das ruas.