—Já leu?
—Já. Trata-se de um amor um pouco parecido com o nosso.
—Então não leio. Sei que está cheio de injustiças e de mentiras perversas. Os senhores romancistas não perdoam ás mulheres; fazem-nas responsaveis por tudo—como se não pagassemos caro a felicidade que fruimos! Nesses livros tenho sempre medo do fim; revolto-me contra os castigos que elles infligem ás nossas culpas, e desespero-me por não poder gritar-lhes: hypocritas! hypocritas! Leve o seu livro; não me torne a trazer d'esses romances. Basta-me o nosso, para eu ter medo do fim.
—Não tenha remorsos; o nosso não acabará!
—Remorsos ... remorsos de que? Pensa, Gervasio, que, desde o primeiro anno de casado, o meu marido não me trahiu tambem? Qual é a mulher, por mais estupida, ou mais indifferente, que não adivinhe, que não sinta o adulterio do marido no proprio dia em que elle é commettido? Ha sempre um vestigio da outra, que se mostra em um gesto, em um perfume, em uma palavra, em um carinho... Elles trahem-se com as compensações que nos trazem...
—Isso tudo é vago e abstracto.
—Não importa. E as denuncias? e as cartas anonymas? e os ditos das amigas? Eu soube de muitas coisas e fingi ignoral-as, todas! Não é isso que a sociedade quer de nós? As mentiras que o meu marido me pregou, deixaram sulco e eu paguei-lh'as com o teu amor, e só pelo amor! E assim mesmo o enganal-o peza-me, peza-me, porque, quanto mais te amo, mais o estimo. É uma tortura, que parece que foi inventada só para mim!
Gervasio não respondeu. Tinha o rosto contrahido por uma expressão de ciume. Passado um instante de silencio, murmurou:
—É extraordinario! Nunca julguei possivel essa dualidade no amor. Bem, levarei o livro. Adeus.
—Não vá... É cedo ... supplicou ella, com o rosto pallido, illuminado de paixão. Fique, é tão bom! Fallarei noutra coisa. Ensine-me a fallar, Gervasio.