—Fez boa viagem? perguntou-lhe elle carinhosamente.
Mas era pedir muito, pedir-lhe que falasse. Ella não respondeu. Os seus olhos, de um azul turvo, interrogavam a porta do interior da casa, onde Maria vinha recebel-a outr'ora...
Penetrou na saleta com o mesmo silencio prudente. As lagrimas estavam-lhe na garganta. Gloria embarafustou pela casa, á procura de D. Alice. O barão sentou-se em frente da mulher e do genro, enxugando a calva humida, com movimentos nervosos.
Argemiro esperava...
Cançou-se. O constrangimento dos velhos fez-lhe pena. Começou:
—Esta casa é a mesma de ha oito annos, menos, muito menos alegre, mas egualmente sua. O que lhes peço é que se dirijam á governante, D. Alice, que tem plenos poderes para qualquer determinação, e com ella se entendam sobre tudo o que desejarem.
É uma moça distincta e a sua convivencia espero que lhes seja tão agradavel quanto a sua gerencia nesta casa me é util...
Estas ultimas palavras disse-as todo voltado para a sogra, que o ouvia sem pestanejar e muito séria. Elle continuou:
—Como sabem, esta senhora vive nesta casa sem que eu a conheça; e já agora manterei até ao fim esta situação, que parecerá exquisita a toda a gente, menos aos senhores... É um ponto sobre o qual não desejo insistir e por isso limito-me a pedir-lhes que a tenham na conta mais de uma amiga da familia, proveitosa principalmente á minha filha, do que de simples despenseira...
O barão espiava o effeito das palavras do genro no rosto da baroneza. Pallido, mais descahido sobre as pelles molles do pescoço, elle alongara-se, emmurchecido. As rugas faciaes, das narinas ao queixo, cavavam-se fundas, denegrindo a brancura enluarada da pelle. A boca fina esquecera a habitual expressão, arqueando-se muda sob o nariz pequenino e afilado. Só os seus olhos aguados, ensombrados por sobrancelhas inda negras, reflectiam contornos movediços de pensamentos dolorosos.