As janellas de guilhotina, dos compartimentos superiores, viviam escancaradas para o azul da bahia, taes como os olhos do Assumpção para um sonho infinito...
Todo o edificio, da base ao cimo, parecia socegado; a loja era habitada por um casal de surdos-mudos, cujos gosos e soffrimentos não varavam paredes nem vãos; o primeiro andar pela mãe de Assumpção, e o andar superior, mais resumido, por elle só, que o enchia com os seus livros e as mobilias antigas do seu quarto.
A paz, se o silencio é paz, seria só apparente. O casal de mudos era pobre, e viviam ambos sob a canga do trabalho, cosendo botinas para as fabricas de calçado.
D. Sophia, a mãe de Assumpção, confessava desgostosa não ter criado o filho para Deus, mas para si. Aquella batina preta era o espantalho dá sua alegria. Para ella, o mysticismo do filho fôra uma fórma de doença a que não soubera dar remedio, e as maiores queixas voltava-as contra si propria, que o deixara afinal enveredar por aquelle caminho de sacrificio.
Ella educara-o para o mundo, para a familia, para o amor! Sonhara com outra filha, a mulher d'elle, que a ajudaria a amimal-o, e lhe daria meia duzia de netos fortes e bonitos! O sacerdocio reduzira a cinzas as suas esperanças luminosas. Tudo acabava, tudo morria nelle, que se abatera de repente, como uma vela rota no meio do temporal.
De que lhe servira ter-lhe insuflado o amor pela natureza, pela gloria, pela patria; ter-se sacrificado tanto para o tornar physica e moralmente um forte, se elle lhe escapara, por entre as mãos frageis, para o vacuo? Pobres mães, como os seus designios sahem errados! A quantos sacrificios ella se sujeitara, quando elle era pequeno, com o pensamento de que mais tarde ella teria de tudo a compensação, vendo o seu filho gosar a vida larga e amplamente!
E eil-o um concentrado... um padre! Fôra o collegio dos padres que lhe inspirara aquillo, ou alguma paixão? Elle nunca o dissera. E que importava a causa, se o effeito alli estava e irremediavel!
Amorosa e amiga de crianças, ella lamentara em moça não ter podido dar irmãos ao seu filho, que o alegrassem, arrastando-o em correrias; companheiros de infancia, confidentes amigos da mocidade! E era d'ahi tambem que lhe nascêra a visão d'aquelle futuro ruidoso, quando ella já velha visse a sua casa invadida pelo riso e a jovialidade dos netos!
E o filho, desegual no humor, ora timido, ora arrebatado, cresceu sob a suggestão d'esse sonho. O que lhe valia a ella era a amizade do Argemiro, que mais velho um anno que o amigo, lá o entretinha com as alegrias do seu temperamento robusto. Eram vizinhos, estudavam no mesmo collegio, amavam os mesmos poetas, completavam-se pelas suas semelhanças e dessemelhanças.
A amizade do Argemiro foi um allivio para D. Sophia. Bem percebia ella não bastar á felicidade do filho!