—Senhora, porque ela ainda ignora o destino que lhe quereis dar...
—Cala-te, jardineiro, e leva-me até onde o mais alto Castanheiro do meu jardim...
Já o sol ia quente e o céu, todo azul, não tinha fundo.
Tiveram de subir a pé a colina das "Degoladas", atapetada de anémonas e de cardos mansos.
Fôra naquelle sítio que o avô mandara degolar duas servas, por intrigas de amor.
Dizia a lenda do Castelo, onde as próprias pedras porejavam contos, que desde então quem andasse por ali alta noite ouviria cantar plangentemente as anémonas roixas ao luar...
Chegando ao topo da colina a Princesa parou estupefacta.
Oh! a beleza do grande Castanheiro! Que placidez a sua! Olhando-lhe para o tronco cheio de rugas e nodosidades e para as ramas severas, de um vêrde sombrio e doce, ela percebeu que ainda mais do que as outras duas árvores, esta tinha uma linguagem compreensivel e cheia de pensamento:
—Olha-me e verás que ao pé de mim se extingue o sofrimento. Nasci para abençoar. O lavrador esbaforido, quasi a morrer de insolação, encontra á minha sombra refrigério quando a terra esbrazeada em que labuta dardeja ao sol. Simbolizo o doçura e a clemência, sou a cidade dos pássaros e o telhado dos mendigos errantes que os teus mordomos enxotam da tua porta e veem chorar sobre as minhas raízes. É preciso conhecer-se o sabor das lágrimas para se perceber o valor da alegria. Eu quanto mais penetro na amargura da terra mais me inebrio na beleza do espaço e no fulgor dos astros.
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