A Princesa olhou.
Que estranha expressão de saudade e de melancolia tinha aquela árvore, Senhor! Das suas folhas pendentes escorria tristeza. O orvalho que as molhava ainda, fôra talvez chorado pelos anjos, naquela noite singular...
A essa idéa a Princesa fechou os olhos instintivamente; mas, como num espelho, viu a expressão da árvore reproduzida dentro de si mesma... Tornou a abri-los. A árvore ainda lhe apareceu mais amargurada, com as suas grandes hastes curvadas para o chão, num desânimo inconsolavel...
—Garçolindo! por que é esta árvore assim tão melancólica?...
—Senhora, porque ela já sabe o destino que lhe quereis dar...
—Cala-te, jardineiro, e leva-me até onde uma Acácia que tenha galhos robustos...
Ora, a Acácia mais linda do jardim era a que ensombrava o velho pavilhão da defunta Rainha. Indiferente á evocação do lugar, na certeza de que vida desaparecida é vida renovada, a árvore resplandecia no ouro das suas flores cheirosas. Ramalhuda e alegre, suspendia um ninho em cada galho. Da sua fronde irrompiam cantos, sentia-se na frescura o fremir amoroso de centenas de asas, mas não só asas de pássaros, como tambem de abelhas zumbidoras, que, luzindo ao sol, colhiam o mel das suas flores rutilantes...
Desde as raízes estendidas na terra até á mais alta folhinha a desenhar-no no ar, a árvore fecunda falava em vida, esperança, maternidade!
A Princesa, tocada por aquela expressão jubilosa, voltou-se para o jardineiro e preguntou:
—Garçolindo! por que é esta árvore assim tão alegre?