—Tu, que mandei ao fundo do mar, conta-me o que viste.
O cego agitou-se, passou nervosamente a mão pelos cabelos. Damas e cavalheiros sussurraram palavras de piedade...
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—Fui da orla da praia até á vastidão do Oceano sem limites visiveis, onde o céu parece mais vasto e onde as águas são mais profundas e misteriosas. Nem um córte de asa perturbava no ar a solenidade do silêncio e do vácuo; nem a vela do mais pequeno barco punha sobre a onda a nota viva de um pensamento humano. Era o Nada terrivel e augusto, na sua grandeza desesperadora... Entre o céu e o mar alto, sentia-me fóra do mundo, na perplexidade de estar ou não fruindo uma outra existência...
A grande maravilha nessa infinita planície de águas profundas é toda feita pela luz dos astros, que do alto a namoram e lhe alteram o sentimento... O levantar e o pôr do Sol são solenidades sagradas para as ondas, e nada as doma e fascina como as esteiras do luar sobre os seus dorsos irritados... O ar livre, leve, enche-se então de segredos, falas de estrelas, vozes de mundos ignotos, que os nossos ouvidos imperfeitos não entendem, mas que o nosso instinto adivinha...
A Princesa atalhou, impaciente:
—Não quero saber o que é o mar visto de fóra, mas o que lhe observaste no fundo...
E o cego proseguiu, enxugando um suor de aflição:
—O fundo do mar é variado... Por vezes tenebroso; por vezes lindo!
Caminhei, caminhei sobre areias ou cascalhos, ora resvalando em limos e em maciezas de algas, ora golpeando as carnes em serrilhas de conchas, em unhas de crustáceos ou em granulações de madréporas e de corais.