De trechos sombrios descia ás vezes a poços de treva espessa, onde a água era mais fria e o silêncio mais lúgubre. Mas eu andava sempre, andava sempre, nada me intimidava! Topei assim com várias grutas de rochas sobrepostas, por cujos interstícios luziam como redondas lâmpadas elétricas, os olhos de monstros sedentários, de fórmas extraordinárias e pele mole, cor de aço ou cor de ardósia.

Andando sobre patas, como quadrúpedes terrestres, passaram por mim nas mais profundas regiões do oceano feras de corpo imenso e cabeça trombuda, em que mal se lhes percebiam os olhitos enevoados. Outros animais havia sem olhos, de bocas descomunais, com chifres no alto do dorso ou na cabeça, uns do feitio de saipos, outros do feitio de flores...

E eu não tinha medo, e andava sempre, andava sempre! Dir-se hia que a graça divina me revestia todo de uma armadura olímpica que me tornava invulneravel! A própria escuridão do fundo do mar era varada pelos meus olhos, como se eles comparticipassem da mesma natureza da dos seus habitantes. Colhi assim entre os meus dedos maravilhados palmas de rendas vivas e caprichosas e pérolas guardadas dentro de conchas entreabertas, como num cofre. Nenhum jardim terrestre me poderia dar tão vivo gozo... As algas espalmadas, de diversissimas fórmas e tamanhos, tinham côres ardentes como as dos crótons ou macias e frescas como as do linho verde... Dentre grandes búzios opalinos e colunas de espuma petrificada, cresciam hastes de uma vegetação crespa, fina, nervosa, estrelada de florinhas minúsculas côr de aljôfar, côr de âmbar, ou côr de opala...

Desses jardins encantados passei a ladear profundas fóssas. Vinham por elas acima animais rastejantes, de bocas imensas, como as dos crocodilos. Uns tinham as caudas crespas, irriçadas de espinhos amarelos; outros malhados de verde e negro avançavam aos bordos como bêbados. Eram uns quasi esféricos, pardos, revestidos no dorso por fileiras de espetos agudos e finos como agulhas, eram outros esguios e flexiveis, com scintilações azuis na pele branca... Nas partes chãs, imensos vertebrados passeavam demoradamente os seus corpanzis de aleijões, sinistros, erguendo tristes olhos, cubiçosos para os peixes que nadavam em cima, a uma altura inacessivel de centenares de metros ... como um hipopótamo póde olhar para as andorinhas no espaço...

Correntes profundas que levam para o Equador as águas frias dos Pólos, arrastavam-me, por entre esponjas grandes, para novos jardins, onde cresciam plantas de hastes flexiveis e umbelas côr de açafrão ou de esmeralda... Do encantamento ao pavor, do pavor ao encantamento! Das flores fantásticas via-me de novo arrojado para ao pé dos bichos, mais extravagantes. Os grandes animais do mar são monstros. Entre os pequenos, se uns lembram crisântemos vivos ou túlipas ansiosas por um beijo de luz, outros teem unhas de bruxas, negras e rubras, ou cornos agudos saindo como puas dentre massas gelatinosas. Uns teem carapaças denticuladas, outros só teem cabeça e boca, ou só ventre...

Á proporção que eu me ia afastando da costa, muito menos belo me parecia o mar... Só até onde penetra a claridade do céu, penetra a côr e a alegria. Nos abismos do mar alto a treva gera figuras de pesadelo. Os animais marinhos são os seres mais estúpidos da criação... É á flor das águas que nadam os peixes mais activos e inteligentes, alguns mesmo, pela ânsia do ar e da luz, emergem da onda em vôos curtos e alucinados. A própria baleia gigantesca gosta de aspirar o ar livre em um fôlego largo. É só perto das costas que os sábios que se dão ao estudo da oceanografia encontram bons elementos para as suas investigações. As fúrias cegas dos pélagos profundos não atráem ninguem... Quem poderá conhecer toda a enorme legião dos povoadores do mar? Nem mesmo a conheceu o imperador Vitelius, que viu á sua frente, num banquete, duas mil iguarias de peixes e sete mil de aves finas... Com mais alguns imperadores dessa lavra o mundo teria sido exterminado, e até mesmo ás cavernas do mar profundo tais glutões teriam ido buscar os animais de carne fosforecente e indigesta para entreterem a sua fome... Mas essa região soturna, é a unica ainda vedada ao exterminador! O sabor que possam ter os seus animais, não será jamais apreciado pelo exigente paladar de imperador algum. Podem assim os monstros marinhos proliferar em paz, sem de leve suspeitarem que mundo irradiante, buliçoso e perverso vive acima deles sob o clarão das estrelas!

—Basta; atalhou a Princesa. Só me falas em bichos de má catadura, e eu quero ouvir alguma cousa das sereias, das ondinas e desse velho magestoso, de longas, barbas e fronte coroada de pérolas e de corais ... que se chama Neptuno.

—Deuses ... ondinas ... só povoam os mares da Literatura. Acreditai, Senhora, que a harmonia perfeita dos corpos das Venus e dos deuses marinhos, só póde ter nascido da imaginação dos poetas. A Mitologia foi o poema de um povo embevecido pelos esplendores da Natureza... Cada um desses esplendores ele o encarnou em uma figura olímpica, mas feita á sua semelhança! Procural-as hiamos em vão no fundo frio das águas, onde todos os seres teem um feitio extravagante e, para nós, inédito. De lendas, de historias e do passado só alguns despojos de naufrágios acordaram no meu espírito a lembrança de navegantes remotos, descobridores audazes, desaparecidos na vertigem dos ventos e dos séculos...

—No fim, que depreendeste de tudo que viste no fundo do mar?...

—Que a Vida é o Amor, real Senhora.