—Como assim?! Então, esses feios bichos inconscientes?...

—Amam! Amam—e só matam quando atormentados pela fome; e mesmo assim, aos animais de outra especie...

—Ah...

—Obedecem á lei da Natureza. Só o homem guerreia o homem. Porque o homem é o animal de instintos mais imperfeitos da criação...

A Princesa ficou por instantes pensativa. Uma leve sombra se lhe estendia sobre o rosto lindo. De repente, voltando-se para outro cego, disse com a voz ligeiramente trémula:

—Agora tu.

Um guarda avisou o cego interpelado, batendo-lhe num ombro com: o copo da sua adaga.

*
* *

—Ordenaste-me, Senhora, que eu viajasse pelo espaço infinito e vos viesse dizer dentro de tres dias o que tivesse visto! Obedeço, mas infelizmente a minha palavra descorada mal poderá dar-vos uma idéa do deslumbramento de que vim cheio. Para não seguir sózinho em busca de paragens tão desconhecidas e dificeis, invoquei a presença de um velho pastor do Himalaia, afeito desde os mais remotos tempos a trilhar os caminhos azuis do Firmamento, e com ele subi, redemoinhei, turbilhonei por entre os astros fulgurantes... Mas não era eu só que ia levado como uma folha seca pelo tufão. Grandes corpos de mundos luminosos valsavam comigo no espaço, em um movimento vertiginoso.

E eu queria em vão entreabrir a boca, para uma pregunta que o meu ser transformado nem podia formular, nem portanto exprimir... Toda a minha alma se condensava em uma só faculdade:—a do deslumbramento! Invulneravel, segui por entre a chuva de estrelas cadentes que zebravam de ouro o campo celeste. Assim, de espanto em espanto, fui de planeta em planeta. Outros astrónomos mais sábios tomaram-me das mãos do velho pastor do Himalaia, e, com uma precisão absoluta, ensinaram-me as distâncias, o peso e a posição de todos esses corpos luminosos e soltos no ar como poeira douro.