Mais do que nunca, ao divagar pelo Firmamento, eu senti a gloria do pensamento humano, que tão alto sóbe e tão maravilhosamente descortina mesmo as cousas mais inacessiveis... Eu me embevecia no delirio de sensações inexprimiveis, era um ser alado trespassado por todas as tintas diluidas em ondas translúcidas no Universo! Tendo emergido do lençol aquoso das nuvens, já completamente livre da atmosféra que envolve o globo terrestre, eu subia em giros de valsa, em espirais de sonho, ora á órbita de um, ora á de outro astro.

Filho da Terra, todo o meu corpo se sentia atraído para as labaredas do Sol! Para atingi-lo percorri milhares e milhares de quilómetros, passando por entre as estrelas, como através de rosas de um jardim fantástico...

Eu ia para ele como a alma de um crente vai para Deus. Sentia já chegar o instante delicioso de me desfazer na sua luz, quando uma força desconhecida me impeliu para uma corrente circular em que eu comecei a girar, a girar em torno do Sol imenso, sem forças para o atingir. Se fosse possivel fazer a comparação do infinitamente grande com o infinitamente pequeno, eu diria que as miríades de corpos luminosos que se revolviam dentro do astro imenso, lembravam um enxame de abelhas ávidas, agitando-se na corola de um girasol completamente desabrochado... Oh, a luz bemdita, que dá vida aos mundos e glória ao céu, como o seu esplendor inundou a minha alma de extase e de alegria para sempre! E os meus olhos suportavam a intensidade do calor e do clarão espantoso, á proporção que eu varava em segundos milhares de léguas, envolvido em raios de todas as côres, na ânsia insaciavel de tudo vêr, para tudo vos contar, Senhora!

A fantástica velocidade dos astros enche de música todo o Universo. Cada estrela tem uma voz na sinfonia do Espaço imensuravel e o seu ideal leva-a para um destino ainda não penetrado pelo nosso pensamento. Talvez o do Amor, porque no espaço como na Terra, ha em tudo o mesmo frémito de paixão.

São enamorados do Sol os planetas que lhe giram em torno. A Via-Lactea é um fervilhamento de corações extáticos e virginais, onde o amor se cristalizou em rutilações iriadas. Que é o nosso planeta visto do sol? Um pequenino ponto flamejante. Um coração a arder! Que é a lua? Um coração de viuva, onde a saudade imensa não esmorece. Em tudo o Amor, sempre o Amor!

De Mercúrio a Venus, de Venus á Terra, que doce e linda viagem eu fiz! Eu ouvia dos mundos esparsos vozes inesqueciveis e piedosas, num eflúvio incomparavel, que me entravam pelos ouvidos como vozes humanas...

A Princesa estava lívida de espanto e foi com esforço que, movendo as lábios, preguntou:

—E que diziam essas vozes? Dize...

—Volta á Terra e ensina aos homens a serem bons. Tu és humilde, e é pela boca dos humildes que sáem as verdades. Sê clemente e apregoa a clemência; sê justo e exerce a justiça; e quando vires alguem transviado do seu caminho, tu que és cego dá-lhe a mão e dize:—Por aqui ... por aqui! e leva-o a salvamento. Dá a mão aos videntes, céguinho triste, e ensina-lhes o trilho da bondade e da compaixão, que é por esse trilho que se chega á Felicidade e a Deus!

—Basta! exclamou a Princesa, tentando disfarçar um sentimento que a agitava.