Depois, voltando-se para o terceiro cego, disse com voz já quebrada:

—Agora tu...

E o cego levantou-se, muito pálido, e começou:

*
* *

—Entrei pela Floresta com o passo tímido e o coração medroso. Nada atrai e aterra ao mesmo tempo o homem como o desconhecido. Logo, porém, a minha pele fatigada de calor, resequida pela aragem salitrosa da beira-mar, se sentiu adoçada e refrescada pela sombra das grandes árvores benignas. A claridade do dia traspassando a sua umbela vêrde diluia-se numa luz esmeraldina e repousante para as minhas pupilas abrazadas. Todo o ambiente me envolvia numa carícia de suprema consolação. Senti que a alma da Floresta se abria para receber-me, e já todo absorvido pela sua grandeza e a sua poesia, ajoelhei-me devotamente e beijei a terra fecunda, criadora de tantas maravilhas. Nenhuma palavra escrita ou falada me tinha feito jámais compreender a grande Verdade que a natureza da mata enorme e inculta me ensinava. Ali, cada árvore era um poema; cada ninho um exemplo de meiguice; cada colmeia um exemplo de trabalho e cada flor um emblema de graça e de fantasia...

Das nervuras e das raízes das plantas estendidas no chão, dos braços das lianas erguidas em múltiplas sanefas até ao mais alto arvoredo; das corolas das flores desabrochadas, desprendia-se um aroma sadio, sincero, um aroma vivo que os jardins cultivados não sabem exprimir...

A minha língua é fraca para descrever o mundo de sensações elevadas que o interior da Floresta acordou no meu espírito. Percebi pela primeira vez em minha vida que as árvores falam. O nosso ouvido imperfeito não apreende tudo que elas dizem, mas adivinha que a sua linguagem é sempre eloquente, generosa e fecunda de ensinamento...

A Princesa estremeceu, lembrando-se do que sentira na véspera em frente das árvores do seu jardim. Seria então verdade?!

—E as féras? preguntou, dilatando as narinas e cerrando os olhos, no antegozo de descrições cruéis e emocionantes.

—As próprias féras teem dentro desse mundo selvático que é o seu, uma expressão de nobreza, que me causou mais admiração do que terror. Sem fome, e livres da perseguição com que os homens as atormentam, elas teem atitudes plácidas e olhares em que transparece qualquer cousa de profundo e de meditativo, Onde não chega o caçador, está a tranquilidade. Só o homem é mau, só o homem envenena, o ar que respira, pela sua traição, a sua ambição ou a sua covardia; só o homem desconhece a sua verdadeira função na Terra, em que Deus o pôz não para sacrificar os seus semelhantes, mas para ama-los como irmãos...