Eu ouvi as vozes das águas em cascatas prodigiosas ou em regatos humildes; eu ouvi as vozes do vento cantando ou uivando na espessura das selvas; eu ouvi o estrondar dos trovões, reboando pelas quebradas das serras; ouvi o urrar das féras, o bramir das enxurradas, o silvar das serpentes, o ramalhar das frondes, o gorgear dos pássaros, e em todas essas vozes dispersas e harmónicas descobri sempre o mesmo sentido de criação e de amor.
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Houve um sussurro pela sala. As senhoras levaram aos olhos os seus lencinhos de rendas; os homens encobriam os rostos perturbados com as abas dos chapéus emplumados que sustinham nas mãos. É que se ouviram lá fóra os toques dos clarins da guarda, anunciando a próxima execução dos condenados e logo após entraram tres homens na sala, com máscaras e roupagens amarelas e umas voltas de cordas suspensas dos cinturões de metal. Outro sussurro mais dorido percorreu a sala como um lamento. A própria Princesa deixou cair das mãos geladas a sua doce e longa haste de nardos. Os clarins repetiram lá fóra o canto da Morte, mas a Princesa fez aos carrascos um gesto, ordenando que esperassem, e voltando-se para os cegos preguntou ainda com voz estrangulada e olhar inquieto:
—Respondei com verdade a esta pregunta: como pudestes vêr tudo isso, vós que sois cegos?
Todos tremeram. Algumas damas desmaiaram. Que iriam dizer os infelizes!...
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O mais velho e mais pálido dos cegos levantou-se e respondeu:
—Senhora! quando o primeiro homem abriu para a Luz o primeiro olhar interrogativo, sentiu-se arrastar por uma fada invisivel e de tão forte prestígio, que ora o alçava ás regiões sidéreas, ora o mergulhava na onda pavorosa, ou o embrenhava nas matas virgens a descortinar segredos nunca antes violados. Desde esse instante, eterno companheiro da Humanidade, esse Ser acode ás suas invocações ou o leva sem cansaço a viajar pelo Infinito. Lingua não a tem, e fala todos os idiomas! Os seus dedos invisíveis dirigem as mãos dos poetas e logo tumultuam no papel scenas do próprio Inferno ou do próprio Paraíso. A sua boca, que ninguem viu, aflora no mais divino beijo a fronte de um triste miseravel,—e logo ele descreve riquezas e tesouros inauditos; a sua voz não tem som, mais segréda ao ouvido dos músicos e logo resoam as harmonias de cantos admiraveis; os seus olhos não teem pupilas, mas contemplam as côres do íris e induzem os pintores a criarem nas telas figuras de beleza eterna! Cria as estátuas dos museus e cria as almas dos livros. É o supremo Bemfeitor do Universo porque, reparai, até faz vêr os cégos!...
Um calafrio percorreu a assembléa. As damas puzeram-se de pé, cheias de medo. Os cavalheiros sacudiram no ar os seus chapéus emplumados e os quatro guardas de cerimónia cruzaram as lanças no chão, em sinal de súplica. Era a primeira vez que tal acontecia na côrte. A Princesa, apoiada aos braçais do trono, com gesto comovido e aflito indagou ansiosamente:
—O nome! eu quero o nome dessa Fada invisivel e assim poderosa!