«Coisa má» se lhe chama; e por peior que seja sempre ha de ser preferivel á ruindade humana;—que mais vale dar uma topada ou uma canellada do que encontrar certas caras!

«Coisa má» é a lua de março;[{214}] a lua marcina, como lhe chamam no campo—que nem deixa saber se haverá trigo ou milho emquanto ella não passar; coisa má é a terra esquentadiça e delgada, a terra que aperta e não produz, defronte mesmo de chão fresco, chão de barro, ao pé de varzea; coisa má é o lameiro virgem; a espada que matasse homem, ou que passasse tres vezes o Douro e o Minho; o lenço de assoar que nos deram sem que recebessem cinco réis em troca...

Salta nos atomos a ironia, as moleculas andam a rir-se; são laços, armadilhas, ratoeiras, os corpos mortos que nos rodeiam; parece que não ha objecto que não[{215}] tenha morador, que não tenha inquilino, que não tenha «coisa má» em si; espiritos malignos que espreitam pelos poros com o seu olhinho gasio, fazem caretinhas á alegria em que uma pessoa esteja e rompem em risota perante as maguas que nos pesam... Demonios hostis, pequerruxinhos, invisiveis, que estão sempre á caça de nos pregar peça...

Anda, ás vezes, mezes a fio «coisa má» com a gente—que nem que fosse um cão escondido de que só se aviste a baba e a mordedela... Em se pondo chapeu novo, é sabido que ha de chover.—Fato que se vista pela primeira vez, não deita ao sol posto sem lhe succeder[{216}] precalço; anda um homem com calafrios na golla, e acrescimos nas abas, passam pressentimentos nas pernas, e apertam-se as fivellas com susto do que se está passando...

Ah! rico palletot velho, chapeu companheiro das noites de inverno, capote das rapaziadas e das aventuras,—que de extensas marchas na estrada da vida! Esses trastinhos é que são amigos, esses é que nos sabem do feitio, e que se ageitam bem ao corpo.

Que differença com o fato novo, que se trata como a Santo Antoninho onde te porei! Se na cidade toda não houver mais do que uma porta pintada de fresco, lá ha de vir caso urgente que leve uma pessoa[{217}] a ir por ali roçar-se e arranjar divisas na manga como um sargento; ou um diabrete de algum preguito que tenha estado annos n'aquella umbreira sem fazer mal a ninguem, até que nos apanhe com um farpão formidavel!

Ha coisas que se perdem sempre; outras que sempre esquecem: a chave do trinco, por exemplo. Que de noites fica o sujeito durante horas batendo á porta, na esperança de que o visinho se compadeça d'elle,—ou, o que ainda é peor, que de noites tem o homem de ir dormir fóra de casa por não ter comsigo a chave do trinco! Noites de aventura forçada, noites sem graça e sem gosto, quasi sempre[{218}] a chover, e o pobre diabo a vagabundar e a ir bater quem sabe onde!?

Que, diga-se a verdade e não deitemos toda a carga ao lombo da chave do trinco—não é só ella que tem coisa má, são todas as chaves. Em sendo preciso abrir porta, caixa, armario, ou malla, ahi se somem ellas, e toca a procurar d'aqui, a buscar d'acolá, e vae e gira e anda e volta, até que vão achar-se muito bem fechadas n'uma gaveta!

Em antigas relações de autos da fé e sentenças da Inquisição ha mil historias de «coisa má,»—poços que atiram para fóra com o que se lhes deita; hervas de maleficio[{219}] que se mettem de proposito debaixo dos pés da gente, pedregulhos em que mora ferrabraz, satanaz, caiphaz...

Ás vezes é o mau olhado. Está a «coisa má» nos olhos, no feitio, na luz e influencia d'elles; e a gente deixa-se levar de apprehensões, de inquietações, a recear de tudo, e a querer saber, a querer explicar... Por isso faziam bem os egypcios,—nunca houve povo com mais juizo!—que cortavam as curiosidades e as manias com a religião, e fizeram da noite origem de tudo quanto ha, mundo, estrellas, soes, divindades. Noite. Armar em dogma e em artigo da fé a escuridão que envolve as coisas, e[{220}] adoral-a por não saber que explicação lhe dar.