Que ás vezes succede que a «coisa má» possa parecer boa. Ahi está que havendo em Portugal superstição para com os tortos, já um poeta dos principios do seculo passado, mascarado com um pseudonimo, os cantou no poema da Monocléa; poema destinado ao louvor dos cegos, vesgos e zanagas, e em que se diz de Camões como quem dá de vez com o segredo da sua gloria:
De um olho claudicava de tal arte
Que celebre se fez em toda a parte.
Tudo vae da disposição d'animo, do interesse, e da optica. Um agiota,[{221}] sempre certo no Terreiro do Paço, da uma hora ás tres, debaixo da arcada, emprestava dinheiro—n'uns tempos de crise politica e financeira, de que o paiz ficou guardando má lembrança—a 9 por cento.
Dizia-lhe um amigo:
—Ó homem! Isso é esfollar de mais! Olha lá o ceu não te castigue. Deus vê tudo, e estou que não te perdôa essa!
—Deixa-o ver, respondia o outro. Eu bem sei o que faço. O 9 visto lá de cima parece um 6.
Ha dias em que todas as cousas realmente parecem querer-nos mal, e em que as contrariedades veem em ranchos, em grupos, em series;[{222}] desde o saltar da cama até ao deitar á noite como que se vae caindo de barranco em barranco; parece estar-se destinado como o Sybarita a que até a prega de uma folha de rosa nos sirva de incommodo para nos sentarmos. Não se póde trabalhar, nem pensar sequer. O correio, arauto do torneio da vida que todos de manhã esperam soffregos, ou não traz carta ou traz más novas;—sae-se para a rua sem haver escovado o fato;—as pessoas a quem se procura, em morando alto não estão em casa;—ao voltar da esquina está á porta da taberna um bebedo a comprar castanhas, e entorna por cima da gente o copo que tem na[{223}] mão;—é n'esse dia quasi sempre que um homem se constipa, rompe a espirrar duas horas, e fica sem o botão do collarinho...
Em Portugal as classes cultas são tão dadas á superstição das series como o povo; em lhes succedendo um revez não descançam emquanto não chegam mais dois; tres é o numero.—Decorrem dias, semanas, mezes, sem haver incendio; mas, em tocando a fogo, dizem que é certo não parar n'aquelle, e os gallegos ficam logo de pé no ar para irem buscar outra vez a bomba.
É da indole da nossa terra dar vulto a estas manias, pelo amor que ha aqui a tudo que seja casos[{224}] sombrios, dias nefastos, e cousas relamborias. É sabido! Precisamos absolutamente de tudo que for mofino e tetrico. Indifferentes, preguiçosos, desenchabidos, de tudo isto nos consolamos com tanto que venha de tempos a tempos alguma celebreira carregada e tristonha para nos entreter; de Garrett ou de Castilho é raro o que saiba um verso, mas qualquer será capaz de recitar entre a pera e o queijo o fado de João Brandão!
Ha sitios de que se gosta, sem sequer ás vezes saber porque; cada casa tem por assim dizer uma alma, e dá-se uma pessoa bem, mas muito bem, muito melhor que n'outras, n'uma certa; ha um recanto[{225}] do jardim, que cheira mil vezes bem depois d'estes chuviscos do outomno, e onde a gente gosta de estar ao cair da tarde espreitando o ceu por entre a rama das arvores;—ha até simples objectos, coisitas de nada, que exercem attracção nos animos e nos dão gosto em os ver... Mas lá está, lá está no fundo a coisa má;—e esses objectos a que mais se quer serão os que hão de perder-se mais depressa,—e os sitios queridos, a casa, o quintal, a arvore, têem de ser os que a gente haja de deixar mais cedo contra vontade!