—Lembrava-me… como é amigo do Thomé da Povoa… talvez soubesse…
—As relações que possa ter com o pae não me habilitam a devassar o coração da filha; mas que desejavas tu saber d'esses amores? Não te disse ella que era como se não existissem? que nasceram sem faculdades para viver? O que te resta é julgar por ti se nas condições em que Bertha aceita a tua proposta, ainda podes insistir em fazêl-a.
—Pois é isso mesmo. E depois de a ouvir hesito.
—Duvídas de Bertha, não é verdade? Receias que esses amores não lhe morram no coração e que um dia revivam como a lavareda quando se desfaz o monte de cinzas que a suffocava? Se assim é, se não tens no caracter de Bertha a precisa confiança que devemos ter na mulher que escolhemos para companheira na vida, se não repousas cegamente n'ella, na sua lealdade, nas suas virtudes, então desiste, porque irias envenenar a tua vida com ciumes e a d'ella com suspeitas injuriosas.
—Não desconfio de Bertha; mas queria saber porque julga ella impossivel esse amor que sente, para vêr se a mim me pareceria tambem que o era. Quem sabe lá se o é? E se deixar de sêl-o por o motivo de hoje e o fôr por Bertha ser minha mulher? Quem me podia curar d'este desgosto?
—Socega, Clemente, os motivos que hoje se dão, dar-se-hão sempre—disse imprudentemente Jorge.
—Pois sabe quaes são?!—perguntou Clemente admirado.
Jorge conheceu a indiscrição em que tinha cahido, e procurou emendal-a, dizendo:
—Não; mas se Bertha t'o assegurou… Ella não costuma ser irreflectida… E motivos ha na vida tão poderosos e permanentes, que póde bem predizer-se na presença d'elles a impossibilidade de um facto.
—Eu sempre os queria conhecer, para julgar por mim.