Jorge replicou com impaciencia:
—Julgar por ti! E quem te diz que saberias aprecial-os? Talvez os julgasses faceis de vencer, não obstante elles serem insuperaveis. Acredita o que te digo, Clemente. Um homem só póde ser perfeito juiz das acções de um outro, quando entre ambos se dão absolutamente as mesmas condições de existencia. Desde que estas variam, varía com ellas a maneira de vêr as coisas. O que para ti é um acto natural e facil, é para mim um impossivel, porque se lhe oppõe opiniões, sentimentos, crenças que me são proprias, que fazem parte de mim mesmo, de minha entidade moral, e que tu não possues e de que por ventura te ris. Por isso escusado seria talvez saber do segredo de Bertha mais do que o que ella te revelou. Crê sob a garantia da sua palavra que esses amores foram apenas uma phantasia da mocidade, que os rudes deveres da vida extinguirão, e resolve.
Clemente permaneceu ainda por muito tempo silencioso.
Jorge pôz-se a passeiar no quarto.
A final o noivo de Bertha ergueu-se e disse suspirando:
—Bem; veremos o que pensa minha mãe.
—E que direito tens tu de ires fallar a tua mãe nas confidencias de
Bertha?—interpellou-o Jorge, com uma vehemencia que sobresaltou
Clemente.
—Devo confiar em minha mãe, pelo menos tanto quanto confiei no snr.
Jorge. Bertha não m'o levará a mal.
Jorge reprimiu-se ao responder:
—De certo que não acho mais justificado o escolheres-me para confidente. Emfim, faze o que quizeres, mas… segue principalmente o que te dictar a consciencia.