Bertha proseguiu:
—Mas a proposta d'aquelle casamento, feita pelo snr. Jorge, foi para mim mais uma prova da antipathia, que eu julgava merecer-lhe. Pareceu-me quasi uma perseguição; despeitada com ella, disse a meu pae que aceitava a proposta de Clemente.
—E elle… e elles que disseram?
—Ficando momentos depois só com o snr. Jorge e sem que podésse já reter as lagrimas que me afogavam, perguntei-lhe quaes eram as razões que o tinham levado a dar aquelle passo, a encarregar-se d'aquella proposta, porque motivo eu lhe era tão odiosa, o que é que o levára a fazer-me mal, a mim que nunca lh'o fizera nem desejára.
—E elle?
—Foi então—proseguiu Bertha, mas enleiada—que imprevistamente elle me confessou que o unico motivo de todo o seu proceder, da sua apparente má vontade, da dureza das suas palavras era… a affeição que me tinha e que, desde que a sentira, se esforçára por occultar e vencer, como eu tambem fizera; que estava decidido a sacrifical-a aos seus deveres de familia, mas que não queria que o sacrificio ferisse a mais alguem senão a elle, e para isso procurava sempre desviar de si pelo seu proceder as minhas attenções e sympathias. Não o conseguiu; mas que importava? Eu não tinha menos coragem do que elle, e comprehendia tão bem como elle quaes eram os meus deveres, que em mim eram mais fortes ainda.
—Pobre rapariga!—murmurou D. Luiz commovido.
—Assim posso dizer que foi aquelle o primeiro e o ultimo dia d'esses… amores de que lhe vieram fallar não sei para quê. No mesmo dia em que nos declaramos, no mesmo dia promettemos abafar em nós mesmos essa loucura que nascêra sem que o sentissemos. E tanto que dias depois eu vinha pedir-lhe o consentimento para me casar com Clemente.
—E teu pae nada soube de tudo isso?—perguntou o desconfiado fidalgo.
—Se nós mesmos o não sabiamos!—respondeu Bertha com ingenuidade.