Depois de um intervallo de muda reflexão, D. Luiz segurou outra vez nas mãos a graciosa cabeça da afilhada, e poisou-lhe na fronte um beijo, verdadeiramente paternal.
—Era bem digna de ter nascido entre a nobreza—disse elle suspirando—quem tão nobremente pensa e procede. Quantas raparigas creadas em palacios deviam ouvir e aprender de ti, Bertha! Pobre pequena! O teu sacrificio é grande e custoso, porque tu com esse coração que tens, se amas, deves amar devéras; mas bem vês e tu mesma o reconheces, é um sacrificio inevitavel! Nas familias como as nossas ha certas exigencias tradicionaes….
—Snr. D. Luiz—disse Bertha interrompendo-o—repare que ha dias que eu lhe pedi o seu consentimento….
—Bem sei, Bertha; bem vejo que o teu juizo dominou a tua phantasia de rapariga. Por isso te admiro, filha. Mas para que levavas tambem tão longe o sacrificio, indo casar-te com um homem que não amavas?
—Era um homem honrado, que me pedia para companheira da sua vida. O destino de uma mulher como eu é esse. É a nossa missão. Porque não havia de cumpril-a?
—Illudindo, porque não podias amar.
—Disse-o a Clemente. Não lhe prometti o que não podia dar-lhe.
—E elle aceitou?!
—Pediu tempo para pensar. Agora vejo que não….
Calaram-se por algum tempo. Bertha, sem erguer os olhos, dobrava e desdobrava distrahida o pequeno avental de sêda. D. Luiz observava-a com ar pensativo.