O genio de Cecilia nem sempre lhe permittia proceder, sem commentarios, áquella leitura toda. A apologia exaltada do governo interrompia-a ella ás vezes com um áparte, capaz de produzir crise ministerial, se fosse escutado nas camaras; uma catilinaria, acerbamente opposicionista, desafiava-lhe reflexões, que neutralisavam o contagio anti-governamental que principiava a fazer das suas nas profundas convicções de ordem do snr. José Fortunato.
O leitor deve estar certo de que, por aquelle tempo, monopolisavam a curiosidade publica as variadas peripecias da guerra da Crimeia.
Cecilia era obrigada a ler aquellas descripções de carnificina, que todos os dias enchiam as columnas dos periodicos; isto o fazia ella sempre com a fronte contrahida de desgosto.
Manoel Quentino era pelos alliados, José Fortunato esposava a causa dos russos—um e outro sem saberem bem porquê. Cecilia era só pelos mortos e feridos.
Um dia parou no meio da descripção de um dos mais sanguinolentos encontros dos dois exercitos, para interpellar o pae sobre a causa d'esta guerra implacavel.
A pergunta embaraçou consideravelmente Manoel Quentino, que olhou para o snr. José Fortunato, como a ver se lhe vinha auxilio d'alli; o snr. Fortunato o mais que pôde dizer foi:—«Que a guerra era lá por causa de umas cousas».
Cecilia tambem não exigiu saber mais.
—«Os russos…—leu ella n'aquelle serão—fazem fogo durante a noite sobre o campo dos alliados; estes absteem-se de responder.»
—Teem mêdo—commentou logo o snr. José Fortunato com um sorriso.
—Isso é plano!—acudia Manoel Quentino, com ares de quem entrava no mysterio.