Depois de cada um tomar a sua posição respectiva, o snr. Fortunato principiou a fallar, misturando na bôca as palavras com chá, com leite, e com tostas e bolos.

—Pois, menina, eu estou morto agora por ver se o tal meliante escapa da prisão.

—Pois quem foi preso?—perguntou Manoel Quentino, que, tendo estado a dormir, não sabia que o seu amigo se referia ao romance, que vinha na folha.

—Então não ouviu?—disse o snr. Fortunato, engulindo um bolo—Ella foi bem pilhada, isso lá foi. Porque o homem, pelos modos, não sabia que o desconhecido era o pae da rapariga, e tanto que elle ficou espantado quando o outro lhe appareceu, vestido de preto, e lhe disse…—Aqui o snr. Fortunato engrossou a voz.—«Eu sou a ultima das tuas victimas!»—E o filho então é que veio a saber d'isto: sim, porque até alli não sabia nada. Veio então a saber que a irmã do amigo do commendador é que tinha dado o dinheiro, que elles entregaram á tal viuva do cunhado do escrivão.

Manoel Quentino mexia machinalmente o chá, olhando boquiaberto para o amigo, sem que percebesse uma só palavra, apesar do snr. Fortunato gesticular, voltado para elle.

—Que diacho de embrulhada é essa? Eu se o entendo!

—Então não leu?—teimava o outro—Elles tinham combinado que, logo que partisse o navio, o rapaz fosse accusado do roubo feito ao commendador; e para isso mandaram dizer aos tios do defunto que as joias foram encontradas na caixa do escudeiro do desconhecido, mas…

—Mas quem demonio é essa gente toda? Que mexerofada de cousas!—exclamou Manoel Quentino, devéras impaciente.

—Então não ouviu?—insistiu o snr. Fortunato, cuja natural difficuldade de expressão se exacerbava ao expôr as enredadas aventuras de um romance francez.

Cecilia, que ao principio não attentára no dialogo comico, que se estava trocando entre os velhos, não pôde deixar de rir com vontade, ao dar por elle.