—Xavier de Maistre inspirou-se de Sterne; é evidente; ficou porém a grande distancia d'elle. A Viagem sentimental, sim. Oh! A Sentimental journey. É um livro delicadamente temperado de uma certa especiaria philosophica, unica que se combina com vantagem á litteratura amena. O humour morreu com Sterne.—Pausa.—A demasiada philosophia gela a inspiração litteraria. Ahi tem Pope. É frio, é árido, é marmoreo.—Pausa.—Os poetas francezes não teem tanta tendencia para se deixarem philosophicar, permitta-me o neologismo. Victor Hugo, ás vezes… Qual prefere você, ó Carlos, Lamartine ou Victor Hugo? Victor Hugo é mais byroniano. E é notavel que fosse Lamartine quem cubiçasse o Childe Harold. Força de contrastes! Aquelle Childe Harold! aquelle Childe Harold! Que me diz você áquelle Childe Harold? É o unico poema verdadeiramente romantico, que se tem escripto até hoje.—Pausa.—Perdôo-lhe o Poor, paltry slaves! com que nos mimoseia. E note que eu não sou admirador cego do Byron.
Nova e maior pausa, durante a qual o orador accendeu um charuto.
Carlos continuava calado.
Percebeu então que n'um grupo vizinho se dizia:
—Quem tem uma bonita parelha é o visconde de Custoias.
—Melhor é a do Manoel Galveias.
E mais adiante:
—Perdão, menino; mas para mim a synthese não é uma mera condensação dos factos analyticos; a synthese precede a analyse, e dá a esta a força que vae buscar ao mundo interior, isto é, verte n'ella o immutavel, os principios evidentes; Kant…
O jornalista continuava:
—Eu não me regulo pela critica convencional. É o meu systema. Não me resolvo a entoar amen á opinião dos povos.—Pausa.—Por exemplo, tenho a sinceridade e a coragem de confessar que não me fascina Dante.