N'isto ouviram-se gritos agudos, desentoados, pungentes, que fizeram parar Jenny e assombraram-lhe a fronte serena de uma nuvem de tristeza. Vinham do andar superior aquelles gritos.
O criado, vendo-a parada a escutal-os, disse meio compungido, meio a sorrir:
—É a snr.ª Catharina; tem estado desde hontem tão impaciente!
—Pobre Kate!—murmurou Jenny, suspirando—e subiu com ligeireza as escadas, que conduziam ao mirante.
Catharina ou Kate, segundo a familiar abreviatura ingleza, era uma criada octogenaria, que tinha sido ama de Mr. Richard e jazia agora, paraplegica e demente, n'um dos quartos da casa, vigiada com carinho pela familia Whitestone e com impaciencia, a custo reprimida, por os criados e criadas. Em certos dias os accessos da velha eram furiosos e as suas imprecações, em lingua mestiça de portuguez e de inglez, e os seus gritos horripilantes punham em alvoroço toda a casa. Em momentos assim era difficil apazigual-a; tão violentas gesticulações fazia, que poucos eram os braços para impedir-lhe que se maltratasse.
—Cães!—bradava ella agora, n'aquelle estranho imbroglio linguistico, impossivel de reproduzir aqui e que fazia rir as criadas que a seguravam—Cães! Teem-me aqui presa! Querem matar-me á fome! á fome! Mas deixem estar que em vindo Dick… Elle ha de vir, ha de vir! Larguem-me! Dick! Dick!—Era o nome familiar que ella dava ainda a Mr. Richard.—Dick! pois assim queres matar-me? assim queres ver-me morrer? Não tens pena de mim? Dick! Fui eu que te trouxe ao peito, eu… Olha que sou a pobre Kate Simpleton. Dick! Dick! Livra-me d'estes demonios, que me querem afogar. Que mal te faço eu, para me deixares morrer? Larguem-me!
E por um esforço inesperado d'aquelles braços emaciados e fracos, soltou os punhos das mãos, que os seguravam, e levando-os ás faces, feria-se no rosto encarquilhado e contrahido.
N'isto entrou Jenny no quarto.
A velha apoderára-se de uma faca, que por descuido lhe tinham deixado ao alcance da mão.
Jenny fez signal ás criadas para que se afastassem do leito e aproximou-se d'elle.