O rosto da octogenaria illuminou-se com um sorriso estranho, selvagem quasi; a cabeça principiou a agitar-se-lhe em movimento affirmativo, que, pouco a pouco, augmentou de velocidade, até á rapidez de certos desordenados gestos proprios d'aquelles estados de espirito; a mão soltou a faca que ainda segurava.
—Eu logo vi que me conhecias—dizia Jenny, afastando-lhe compassivamente os cabellos da fronte enrugada.—E has de estar quieta, não has de?
—Sim, sim—dizia a velha, a rir como creança, e lançava os braços em volta do collo de Jenny, aproximava-a do seio e beijava-a, murmurando com voz chorosa as mais ternas expressões de affecto da lingua ingleza.
—Sim, sim, poor thing; sim—repetia muitas vezes, cingindo-a a cada momento mais a si.
—Ai, miss Jenny, miss Jenny!—dizia a despenseira aterrada.
Jenny fez-lhe signal com o dedo, a impôr-lhe silencio, ou a mandal-a saír.
A demente, tomando a cabeça de Jenny, principiou a balançar-se como a adormecer creanças, e cantava ao mesmo tempo uma melancolica toada, com a qual, havia cincoenta annos, adormecera já o pequeno Dick, actualmente Mr. Richard Whitestone.
Eis o sentido da canção que, em dialecto escossez, ella cantava:
Dorme, filho, que eu vigio,
E emquanto dormes, sorri;
Que a tua porção de lagrimas
Eu as chorarei por ti.
Jenny não lhe offerecia resistencia. A velha chorava, cantando; a voz ia-se-lhe a enfraquecer gradualmente; por fim tomou-a um d'aquelles profundos somnos, que parece, n'esses estados, participarem já do caracter do somno final, que não vem longe.