(Canto carnavalesco)

Êste padre Borregana, cónego da Sé, tem uma história.

Toda a gente tem uma história, é claro; mas a do padre Borregana é uma história singular, digna de contar-se e de ser ouvida.

Padre Borregana nasceu padre como outros nascem militares, ou poetas, ou oradores, ou assim... Nasceu padre. Desde muito novo revelou uma grande queda para aquele mister. Compleição debil, espírito supersticioso e timorato, era êle quem acendia as velas do altar-mór nos dias de missa cantada; quem ajudava a dobrar o sino dos entêrros; quem[{168}] levava a caldeirinha e o hissope entoando o Bemdito com o Senhor; quem dizia ora pro nobis atrás do pálio nas procissões; quem informava as beatas dos ataques hemorroidários do sr. arcebispo no tempo do arroz de tomate...

—Podia ter nascido corcunda, podia ter nascido zanaga, dizia o pai, a justificá-lo; ninguêm se faz...

E não.

Velhos condiscipulos dêle no liceu e depois no seminário, ainda hoje diziam que o padre Borregana fôra a mais decidida vocação que tinham conhecido para o sacerdócio—para a castidade sobretudo,—o que aos seus olhos de peccadores inconfessáveis o tornára particularmente famoso, votado sem esfôrço ao sacrifício duma existência de renúncia, frouxo de vontade como era, e então com um apelido que lhe assentava como uma luva...

Quando,—já depois de ordenado—desceu o estribo do comboio na estação do Rocio, uma tarde, padre Borregana ficou atarantado,[{169}] hesitante, como uma criança que perde a ama, no meio da barafunda, do vozear confuso da multidão que se acotovelava a saír da gare.

—Ó padre Borregana! ó padre Borregana!...

Voltou-se. Quem o chamava? Que lhe queriam?... Diante dêle um sujeito alto, encorpado, abria-lhe uns grandes braços, oferecia-lhe o peito largo para o receber. Padre Borregana trepidou.