—Cristóvam! vais-me aqui prestar hoje um grande serviço...

O sacristão, um diab'alma alentado e grosso, bruto como umas casas, muito respeitador das qualidades e ornamentos do cura, murmurou, comovido e modesto:[{172}]

—Um serviço? Oh! sr. prior!... Queira vossa reverendissima ordenar... Cá por mim só se não pudér...

—Um grande serviço, Cristóvam, um grande serviço...

Botou uma olhadela á igreja, outra ao S. Jerónimo do altar, outra a bandeira das almas, e erguendo por fim as abas da batina ensebada, revirou-lhe o nédio cêsso, exclamando:

—Férras-me aí um ponta-pé!...

—Quem, eu?

—Já disse, Cristóvam: um ponta-pé.

O sacristão presumiu-o doido. Hesitou, mas por último, vendo o ar decidido do presbítero, para o não irritar, fez-lhe a vontade, encostando-lhe a biqueira ferrada ao hemisfério sul, devagarinho...

—Força, homem! isso não é nada, suplicou o padre, cuja estranha flagelação parecia dever enchê-lo de infinito gôso—isso não é nada!