Depois é que aviava a receita limpando o suor da pescoceira ao mesmo pano com que enxugava as garrafas dos remédios.
A notícia circulava rápida. Perguntava-se por hábito:
—Já viu o termómetro? Quantos marcará hoje o termómetro do Anselmo?
E aí por volta das duas já se sabia, já constava cá por fóra:
—Então hoje, hein? 30 à sombra e 50 ao sol no termómetro do Anselmo!
Desapertavam-se os colêtes...
De facto, desta vez tinham razão. Havia umas horas no dia em que as ruas ficavam desertas, só as moscas e as abelhas faziam o seu giro zumbidor. Dos canos e das valetas onde levedavam detritos, subiam no ar quente exalações pestíferas. Eu esperava o correio com ansiedade, por causa dos jornais, as janelas[{46}] do quarto entre-abertas, o pavimento borrifado com água; ali me conservava naquela meia penumbra, estirado na cama, de papo para o ar... e nu, consoante o Anselmo preconisára.
Saía só à noitinha, que refrescava um pouco, quando a vila se punha a respirar às portas das lojas, ou passeava em grupos pelas estradas, os homens de chapéu na mão e as senhoras de vestidos claros, muito lânguidas, com as blusas desbotadas nos sovacos—da transpiração diurna.
Foi por essa época que eu recebi a carta do meu amigo Felizardo—Felizardo Antunes Vieira Leite, do Porto—convidando-me a ir passar com êle uma temporada numa quinta do Minho, para onde partia nêsse mesmo dia com a mãe, uma senhora respeitável que desejava muito conhecer-me.
No verão iam sempre para lá, dois mêses, a regalarem os pulmões viciados do ar urbano e a vigiarem de perto as colheitas naquela quadra mais intensa da vida agricola.[{47}]