Adorável amigo!
Acabei de ler a carta e ergui-me dum pulo. Abri as janelas de par em par, para que a luz entrasse amplamente. Depois puxei os gavetões e pus-me a atacar de roupa a minha maleta de viagem. Porque eu ia viajar, senhores! Eu ia emfim ver êsse Minho pitoresco de que ouvira sempre falar com tanto entusiasmo.
Fui ao telégrafo e expedi para dr. Vieira Leite o seguinte aviso: «Chego àmanha».
As delícias do progresso!
Jámais apreciára como nêsse jovial momento esta coisa cómoda e vulgar que se chama—o telegrama. E a descer as escadas dos correios eu ainda vinha a parafusar nas belezas da Civilisação,—contente, reconhecido...
De passagem, porque me ficava a caminho, entrei na farmácia. Nunca me dobrára em contumélias aparatosas de adulador ante a figura severa do boticário. Nunca balançára com mão subserviente o turíbulo da Fama com que a vila usava incensá-lo. Digo isto sem a menor[{48}] sombra de prosápia e sem querer censurar ninguêm,—apenas para estabelecer a verdade.
Eu sou um apóstolo da Verdade!
Mas que razões me déra Anselmo que justificassem, até à data, a minha frieza, o meu desdêm, quase? A valer, nenhumas! Ficar-me-ia mal, portanto, que eu tivesse desta vez uma atenção e pondo de parte caprichos, orgulhos, lhe perguntasse muito cortêsmente se queria alguma coisa «para êsse Minho»?
Anselmo estava só, absorvido na laboriosa manipulação duma pomada. Um enxame de moscas poisava na gaze suja que revestia o candieiro de metal suspenso do teto fuliginoso; e atrás, sôbre o pano fundeiro, lia-se no vidro fosco duma porta interior esta palavra em letras gordas debaixo dum emblema galénico: