Avancei, anunciei-lhe o objecto da minha visita. O boticário ergueu a fronte majestosa, reconheceu-me, e mergulhando de novo no trabalho, rosnou por entre dentes:[{49}]

—Boa viagem!...

Aquilo vexou-me; não eram formas de corresponder a uma delicadeza. Vai não vai estive para lhe dizer das boas, das fortes,—das minhas...

Mas não pude. Não sei porquê, mas não pude.

Dei umas voltas fóra do balcão, meio acobardado, com um terror supersticioso que não me deixava falar, nem me permitia arredar pé.

Coisa esquisita!

Baralhavam-se-me as ideias e, na confusão mental em que me via, uma só coisa me preocupava impertinentemente: se aquele Anselmo, aquele pigmeu! teria rialmente alguma influência no destino das chuvas, do vento ou das trovoadas?

Admitida a hipótese, podia muito bem, querendo, vingar-se de mim. Que mais não fôsse senão uma telha despenhada do alto dum prédio, no sopro duma rajada acintosa, sôbre a minha cabeça ímpia.

Mas...—protestava uma voz do fundo[{50}] de todo o meu ser angustiado—o Anselmo, que pisava linhaça, que eu via ali na minha humana presença a fazer pomada!? Insensata apreensão, pueril receio, que o falso, infundado prestígio de semelhante figurão, exercendo-se sôbre o meu espírito num inexplicável momento de fraqueza, havia logrado produzir!

Ah! mas a desforra ia ser tremenda! Eu ia resgatar, num gesto nervoso e varonil, a liberdade de pensar e de procedor de toda uma pequena aldeia de fanáticos, mostrando na hora augusta da emancipação, à luz da evidência e da subtil análise, o que êsse insignificante valia por dentro—como homem e como divindade!