Mas de novo uma dúvida, um vago temor se interpôs ao meu intento, quebrando-me as forças, jugulando-me,—nem que alguma poderosa mão invisível estivesse ali sôbre mim suspensa e pronta a estrangular-me à primeira voz.

—Ora esta! murmurava eu mentalmente, ora esta![{51}]

E passados instantes, tornando a olhar o boticário, que continuava indiferente e mudo a esmagar com a espátula, sôbre um pedaço de mármore polido, uma pasta esbranquiçada e fedorenta, perguntei-lhe com a mais cariciosa das maneiras:

—E que me diz o meu amigo do tempo?...

Ora! foi uma beleza: um milagre! Levantou de novo a cabeça, que me pareceu agora aureolada, e encarou-me. Tinha estampada no rosto a surpreza que a pergunta lhe causára. Vi-o sorrir; e mirando o barómetro (ou o termómetro: não sei...) veio até mim, afável, meigo, aliciador. Percebi que ia ter uma resposta, significando talvez o beijo tácito da reconciliação. Eu ia confraternizar com Anselmo, abraçá-lo, entrar-lhe na intimidade... Que bom! Que pechincha!

Nessa altura porêm, um sujeito baixo, agitado, nervoso, investe porta a dentro com os braços no ar, exclamando:

—Ó Anselmo! ó Anselmo! você já viu? você já sabe?

Fitámo-lo surpresos.[{52}]

Era o Menezes, jornalista, que assim vinha estragar a doce situação.

—Que é, homem, que é?!... Conte lá, desabafe! disse o boticário sem encobrir o seu mau humor.