Anselmo, porêm, num abrir e fechar de olhos, raciocinou: «mas se êste é dos tais que a monarquia não poupa quando voltar; se êle está fatalmente condenado pela revindicta... Deixá-lo ir já!»[{82}]
—Pois tenha paciência, santinha; onde não há el-rei o perde...
—El-rei! exclamou a mulher, furiosa, voltando costas, de repelão,—o que o sr. precisava bem sei eu; não haver linhaça numa terra onde não há mais boticas!
Anselmo ainda ouviu a mulher a distância, queixar-se para alguêm, fazendo escândalo:
—É ali o boticário que não tem linhaça; anda só a pensar na monarquia, o talassa, e esquece-se das obrigações...
O epíteto de talassa custou-lhe os olhos da cara; mas emfim, tudo eram sacrifícios pela Causa. Mais tarde havia de saber-se e os juros viriam—se viriam!—com larga usura e gratidão...
—Talassa! Talassa!...—gritava a mulher.
—Pois sim...
A incursão falhou. Pela raia, em Vinhais, bandos de malfeitores assalariados tinham tentado um simulacro de luta contra a existência[{83}] do novo regimen. Fugiram. A notícia do fracasso voou por todo o país com rapidez. Anselmo soube-a de manhã, na cama, pela criada, e já se não quis levantar. Adoecera. Queixou-se de arrepios, gemeu, disse à mulher que mandasse vir o médico.
—E para a farmácia, quem vai?