Êle levou ambas as mãos ao crânio. Esteve assim, sem se mover, sem dizer palavra, por espaço de alguns minutos. Depois arremessou o guardanapo, empurrou a cadeira, pediu o chapéu e a bengala para saír—e saíu, deixando a mulher boquiaberta, sem perceber coisa nenhuma.

Quando, uma ou duas horas depois, subia as escadas da casa de Hipólito, o dr. Marim ia cabisbaixo, taciturno, como se uma grande dôr o tivesse trespassado mortalmente.

Estivera com D. Leonor que lhe confirmou entre recriminações e prantos a tremenda[{108}] nova da desonra da filha. Fôra ela, a dissimulada, quem se denunciára—com um descaramento, uma serenidade, um cinismo, calcule o doutor, que deixava a perder de vista as maiores desavergonhadas da terra! E era sua filha! D. Leonor não sabia dizer como se contivéra e porque a não estrangulára... Sua filha, tinha dito? Não! Maria Cândida morrêra! Essa que ainda ali conservava, a dentro do seu lar, por uns restos de comiseração, mas que nunca mais quereria ver, não era sua filha: era uma mulher perdida!

E o sr. Xavier? Ah! êsse então, coitado, tinha ficado como morto. Compreende-se... Porque Maria Cândida levára a sua audácia até ao ponto de dizer tudo diante dêle, diante das criadas e dos convidados,—era um sábado—alto e bom som, para que não se perdesse pitada: «A mãe queria casa-lá com o Xavier das massas, por dinheiro; pois bem, ela afirmava ali terminantemente que não casaria: primeiro, porque o detestava; segundo, porque tinha um amante, o professor!»

—Veja o meu amigo, agora, o que foi fazer![{109}] comentou o dr. Marim, voltando-se para Hipólito, a quem acabava de expor a situação com esta nitidez.—Que cabeça a sua! Que responsabilidades!

Hipólito sorriu ligeiramente, murmurou:

—Até que ponto nos podem levar os desvarios do amor, doutor, não é assim?

—É assim mesmo, concordou o médico.—Mas um homem nunca tem nada a perder com estas coisas; agora uma rapariga!...

—Perde tudo.

—Sim, tudo!