—Eu não sei, disse Albernaz com particular accento, como ha ainda quem se case... Anda tudo pela hora da morte!
Elles olharam um instante as velhas arvores da Quinta Imperial, por onde vinham atravessando. Nunca as tinham contemplado; e, agora parecia-lhes que jamais tinham pousado os olhos sobre amores tão soberbas, tão bellas, tão tranquillas e seguras de si, como aquellas que espalhavam sob os seus grandes ramos uma vasta sombra, deliciosa e macia. Pareciam que medravam sentindo-se em terra propria, dellas, da qual nunca sahiriam desalojadas a machado, para edificação de casebres; e esse sentimento lhes havia dado muita força de vegetar e uma ampla vontade de se expandirem. O sólo sobre a qual cresciam, era dellas e agradeciam á terra extendendo muito os seus ramos, cerrando e tecendo a folhagem, para dar á boa mãe, frescura e protecção contra a inclemencia do sol.
As mangueiras eram as mais gratas; os ramos longos e cheios de folhas, quasi beijavam o chão. As jaqueiras se espreguiçavam; os bambus se inclinavam, de um lado e outro da aléa, e cobriam a terra com uma ogiva verde...
O velho edificio imperial se erguia sobre a pequena collina. Elles lhe viam o fundo, aquella parte de construcção mais antiga, joannina, com a torre do relogio um pouco afastada e separada do corpo do edificio.
Não era bello o palacio, não tinha mesmo nenhum traço de belleza, era até pobre e monotono. As janellas acanhadas daquella fachada velha, os andares de pequena altura impressionavam mal; todo elle, porém, tinha uma tal ou qual segurança de si, um ar de confiança pouco commum nas nossas habitações, uma certa dignidade, alguma cousa de quem se sente viver, não para um instante, mas para annos, para seculos... As palmeiras cercavam-n'o, erectas, firmes, com es seus grandes penachos verdes, muito altos, alongados para o céo...
Eram como que a guarda da antiga moradia imperial, guarda orgulhosa do seu mister e funcção.
Albernaz interrompeu o silencio:
—Em que dará isto tudo, Caldas?
—Sei lá.
—O homem deve estar atrapalhado... Já tinha o Rio Grande, agora o Custodio... hum!