—Já. Tenho corrido medicos, espiritas até feiticeiros, Quaresma!

E os olhos do velho se orvalhavam por baixo do pince-nez. Os dous se haviam encontrado na pagadoria da guerra e vinham pelo campo de Sant'Anna, a pé, andando pequenos passos e conversando. O General era mais alto que Quaresma, e emquanto este tinha a cabeça sobre um pescoço alto, aquelle a tinha mettida entre os hombros proeminentes, como cotos de azas. Albernaz reatou:

—E remedios! Cada medico receita uma cousa; os espiritas são os melhores, dão homœpathia; os feiticeiros, tizanas, rezas e defumações... Eu não sei. Quaresma!

E levantou os olhos para o céo, que estava um tanto plumbeo. Não se demorou, porém, muito nessa postura; o pince-nez não permittia, já começava a cahir.

Quaresma abaixou a cabeça e andou assim um pouco olhando as granulações do granito do passeio. Levantou o olhar ao fim de algum tempo, e disse:

—Por que não a recolhe a uma casa de saude, General?

—Meu medico já me aconselhou isso... A mulher não quer e agora mesmo, no estado em que a menina está, não vale a pena...

Falava da filha, da Ismenia, que, naquelles ultimos mezes, péorara sensivelmente, não tanto da sua molestia mental, mas da saude commum, vivendo de cama, sempre febril, enlanguescendo, definhando, marchando a passos largos para o abraço frio da morte.

Albernaz dizia a verdade; para, cural-a tanto de sua loucura conto da actual molestia intercorrente, lançara mão de todos os recursos, de todos os conselhos apontados por quem quer que fosse.

Era de fazer reflectir ver aquelle homem, General, marcado com um curso governamental, procurar mediuns e feiticeiros, para sarar a filha.