—Santo não qué dizê.

E o preto obscuro, velho escravo, arrancado ha um meio seculo dos confins da Africa, sahia arrastando a sua velhice e deixando naquelles dous corações uma esperança fugaz.

Era uma singular situação, a daquelle preto africano, ainda certamente pouco esquecido das dores do seu longo captiveiro, lançando mão dos residuos de suas ingenuas crenças tribaes, residuos que tão a custo tinham resistido ao seu transplante forçado para terras de outros deuses—e empregando-os na consolação dos seus senhores de outro tempo. Como que os deuses de sua infancia e de sua raça; aquelles sanguinarios manipanços da Africa indecifravel, quizessem vingal-o á legendaria maneira do Christo dos Evangelios...

A doente assistia tudo aquillo sem comprehender e se interessar por aquelles trejeitos e passes de tão poderosos homens que se communicavam, que tinham ás suas ordens os seres immateriaes, as existencias fora e acima da nossa.

Andando, ao lado de Quaresma, o General lembrava-se de tudo isso e teve um pensamento amargo contra a sciencia, contra os espiritos, contra os feitiços, contra Deus que lhe ia tirando a filha aos poucos, sem piedade e commiseração.

O Major não sabia o que dizer diante daquella immensa dor de pai e parecia-lhe toda o qualquer palavra de consolo parva e idiota. Afinal disse:

—General, o Sr. permitte que eu a faça ver por um medico?

—Quem é?

—É o marido de minha afilhada... o Sr. conhece... É moço, quem sabe lá! Não acha? Póde ser, não é?

O General consentiu e a esperança de ver curada a filha lhe afagou as faces enrugadas. Cada medico que consultava, cada espirita, cada feiticeiro reanimava-o, pois de todos elle esperava o milagre. Nesse mesmo dia, Quaresma foi procurar o Dr. Armando.